HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Eu quero morar em Atibaia!
O desejo foi expresso por Oswald de Andrade, entre outros escritores que por aqui passaram. Foi também a vontade da escritora Helena Silveira que, após visitar o município, escreveu um belo texto publicado na Folha da Noite e transcrito pelo jornal O Atibaiense, em 1948.
Márcio Zago
Esse era o desejo de muitos artistas e turistas que passaram pela cidade nas décadas de 1940 e 1950. Para os visitantes, a beleza exuberante da estância serrana, emoldurada por montanhas, clima ameno e charmosos hotéis, despertava o sonho de prolongar o descanso indefinidamente. Para os artistas, porém, havia algo além da paisagem encantadora. À beleza natural somava-se uma vida cultural pulsante. Era essa atmosfera, ao mesmo tempo acolhedora e inspiradora, que fazia nascer o anseio de fincar raízes no município.
O desejo foi expresso por Oswald de Andrade, entre outros escritores que por aqui passaram. Foi também a vontade da escritora Helena Silveira que, após visitar o município, escreveu um belo texto publicado na Folha da Noite e transcrito pelo jornal O Atibaiense, em 1948.
O título era justamente este: Eu quero morar em Atibaia!… E anunciava: “Não quero morar em Paris, ou perto da EtoileSaint-Germain-des-Prés, ou na Avenue Montaigne, próximo à nossa embaixada, no Hotel Plaza Athénée, com todos aqueles porteiros feitos generais medalhados de uma forma tremenda. Não. Nem em Beirute quero morar, pisando bons tapetes e tomando café com hortelã. Para alguma cidade dos Estados Unidos não desejo ir também. Já vivi em tantas ruas daquelas nos cinemas que não entendo a emoção que poderia arranjar em tais lados. Uma única cidade me seduz no momento: Atibaia. Se fosse dona de meu destino, mudava para lá”.
A enfática declaração refletia o momento favorável que a cidade atravessava: arquitetura preservada, natureza exuberante, clima saudável e a qualidade de sua água, considerada então a segunda melhor do mundo. A tudo isso se somava a expectativa de um futuro promissor no período pós-guerra, o que fazia de Atibaia um dos destinos mais procurados por turistas e veranistas. Helena Silveira prossegue em seu artigo:”Imaginem os leitores que um dia tivemos a pretensão de levar a poesia a Atibaia. Chegamos em caravana do Clube de Poesia. E tomamos conta da terra como se fôssemos políticos.
Quando saímos, vimos que quem tinha bebido poesia à saciedade éramos nós. Porque Atibaia tem poesia no ar. Tem nas árvores. As pessoas andam todas impregnadas. Acontecem moças poéticas lá, todas bonitas e de olhos pretos. Escrevem no semanário atibaiense. Uma delas, Dulce Carneiro, parece menina de romance francês…” A participação de Helena Silveira e de seu marido, Jamil Almansur Haddad, na caravana do Clube de Poesia, realizada meses antes no Ginásio Atibaiense, marcou profundamente a escritora.
O que ela encontrou foi uma cidade tomada por um raro fervor cultural. Essa efervescência vinha sendo cultivada pelo trabalho de jovens ativistas locais, liderados por André Carneiro, que mobilizavam encontros literários e debates, fazendo da cidade um pequeno e vibrante polo intelectual no interior paulista. E assim ela concluiu o artigo, numa mistura de encantamento e rendição: “Sim, um dia fomos, pobre de nós!, levar poesia a Atibaia. Éramos José Geraldo Vieira, Domingos Carvalho da Silva, Jamil Almansur Haddad, Rossine Camargo Guarnieri, Ademir e Amélia Martins, Oswald de Andrade e Antonieta, e outros. Fomos para ver a poesia retornar à origem… Eu quero morar em Atibaia. Quero, à noitinha, conversar com os poetas André Carneiro e Cesar Mêmolo Jr. Não sei se será à porta de uma farmácia ou ao fim de uma estrada cor-de-rosa que faz traquinadas sobre um monte redondo. O que tenho certeza é de que Dulce, a poetisa, tem gerânios que ela própria plantou. E folhas de malvas também, muito cheirosas, para deixar secar entre as páginas dos livros…” Mais do que um registro afetivo, o texto de Helena Silveira tornou-se testemunho de uma época em que Atibaia vivia um de seus mais luminosos momentos culturais. A cidade não era apenas cenário de repouso e contemplação: era território de criação, encontro e troca.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


