HISTÓRIAS DE ATIBAIA – A inauguração do Grupo Escolar
Em 1905, foi inaugurado o Grupo Escolar José Alvim, reunindo as escolas isoladas na região central de Atibaia.
Márcio Zago
Entre as décadas de 1920 e 1980, as crônicas do professor Francisco da Silveira Bueno deixaram um precioso testemunho sobre Atibaia. Sua escrita precisa registrou com sensibilidade o cotidiano e as transformações de uma cidade que já não existe mais. Uma dessas crônicas, publicada no jornal O Atibaiense em 1950, descreve suas impressões sobre a inauguração do Grupo Escolar José Alvim, onde integrou a primeira turma de alunos. Antes disso, a educação no município era composta por pequenas escolas isoladas, conhecidas pelos nomes dos professores que as dirigiam, como as escolas do professor Bastos, do professor Armando, de Napoleão Maia, de dona Risoleta de Moura e de Eugênio de Toledo, entre outras. Em 1905, foi inaugurado o Grupo Escolar José Alvim, reunindo as escolas isoladas na região central de Atibaia.
A inauguração do Grupo Escolar transformou-se no grande acontecimento da época, marcada por uma festa que permaneceu viva, por muitos anos, na memória dos antigos atibaianos. Na crônica, além da descrição dessa festividade, que incluiu o desfile de um batalhão escolar pelas ruas da cidade, apresentações teatrais, declamações de poesia e discursos, o texto revela também a visão do professor Silveira Bueno sobre a educação de seu tempo. Para ele, ao rememorar um fato ocorrido quase cinco décadas antes, era inevitável estabelecer comparações entre os dois períodos.
E poucos estavam tão qualificados para fazê-lo quanto o próprio Silveira Bueno. Além das diferenças entre o currículo escolar e a formação dos professores, havia mudanças na própria estrutura de ensino que, segundo ele, influíam diretamente no processo educativo. A adoção das aulas mistas, por exemplo, era vista por Silveira Bueno como um fator de perda de valores e formalidades que marcavam as relações sociais de sua juventude. Em um trecho revelador da mentalidade de sua época, escreveu: “Hoje, com as aulas mistas, tudo perdeu o seu encanto: as moças tomam todos os vícios dos rapazes, a grosseria do trato, o fumar, as atitudes indelicadas (…). Outrora dizíamos: senhorita, menina, moçinha, com afeto e delicadeza. E agora? (…) Eis no que deu a educação mista: o sexo feminino barbarizou-se; o masculino acentuou ainda mais as notas rudes de sua formação glandular. Em Atibaia não era assim.”Apesar do tom conservador de suas observações, o cronista também reconhecia os avanços civilizatórios proporcionados pelo Grupo Escolar. Para ele, a reunião dos antigos núcleos de ensino em uma única instituição ajudou a diminuir rivalidades entre estudantes e contribuiu para a formação de uma convivência mais disciplinada. “O grupo escolar trouxe grande proveito à sociedade atibaiana: os alunos das escolas reunidas eram bandos que se detestavam e se agrediam diariamente nas ruas; agora não (…), desapareceram os antagonismos, houve paz nos arraiais e a sociedade de Atibaia se tranquilizou.”Silveira Bueno conclui sua lembrança ressaltando o papel do Grupo Escolar na formação intelectual da cidade.
Segundo ele, do Grupo saíram advogados, médicos, farmacêuticos e professores que honraram o município onde nasceram e estudaram. Mais do que um prédio destinado ao ensino, o Grupo Escolar José Alvim simbolizou, para aquela geração, a entrada de Atibaia em um novo tempo, marcado pela organização da educação pública e pela construção de uma identidade urbana mais moderna e civilizada.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.


