O silêncio da criança boazinha e as violências simbólicas

“Ela é tão boazinha.”
“Não dá trabalho nenhum.”
“É obediente, tão madura para a idade.”
À primeira vista, esses elogios parecem triviais, mas é por trás dessa idealização da “criança boazinha” que muitas vezes háhistórias de sobrecarga emocional, silenciamento e abandono afetivo. Crianças que aprendem cedo a agradar, a não incomodar, a conter emoções e desejos para manter o afeto dos adultos crescem com um peso que ninguém vê, e que, muitas vezes, só se revela na vida adulta como ansiedade, depressão, dificuldade de impor limites e relações marcadas pela culpa.
A criança boazinha quase nunca é ouvida porque nunca reclama, nunca chora, nunca exige e aprende que o amor está condicionado ao seu bom comportamento, que ser aceita depende de ser leve, educada, funcional. Muitas vezes, é a filha mais velha que cuida dos irmãos, a menina que consola a mãe, o menino que “entende” a ausência do pai. Nós, adultos, nos emocionamos com sua maturidade precoce, mas dificilmente percebemos o quanto ela custou.
Essa forma de criação é frequentemente tratada como virtude, mas é uma forma de adultização emocional precoce, e, em muitos casos, de violência simbólica. Quando uma criança é elogiada por ser contida, silenciosa, submissa, o que está sendo premiado não é seu bem-estar, mas o quanto ela é conveniente para o ambiente à sua volta.
Essa criança “boazinha” aprende a engolir o choro, a não responder, a colocar os desejos dos outros acima dos seus e cresce com elao medo de desagradar. Na vida adulta, isso se traduz em dificuldade de dizer “não”, em relacionamentos abusivos, em crises silenciosas, em esgotamento emocional e até mesmo em distúrbios psicossomáticos, como dores crônicas ou insônia.
É importante dizer: ser generosa, sensível e cuidadosa não é um defeito. O problema é quando isso se torna uma forma de sobrevivência emocionale não uma escolha livre. A criança que nunca pôde ser “birrenta”, que não pôde falhar, gritar, testar limites, brincar de verdade: se transforma, muitas vezes, em um adulto que não sabe quem é sem o olhar do outro.
E o mais grave é que esse tipo de infância é romantizada. Professores preferem os alunos quietos; famílias valorizam os filhos que “ajudam” e não questionam; a sociedade pune crianças que expressam raiva ou tristeza, mas premia as que se silenciam, mesmo quando estão sofrendo.
Por isso, é urgente virarmos a chave desse discurso. Criança não tem que ser boazinha sem ser ouvida, sem poder dizer “não”, chorar, questionar, fazer bagunça, errar. A função do adulto não é moldar uma criança para agradar os outros, é protegê-la para que ela possa crescer inteira.
Quando você cresce acreditando que o afeto depende da sua docilidade, qualquer ato de autocuidado parece egoísmo. Precisamos permitir às crianças o direito de serem complexas, intensas, frágeis, barulhentas, inteiras. Precisamos criar meninas que não se desculpem por ocupar espaço e meninos que possam sentir sem vergonha. E crianças que não precisem ser boazinhas para merecer amor.
Anna Luiza Calixto é escritora, fundadora do Projeto Bem me quer, cientista social e educadora sexual.


