HISTÓRIAS DE ATIBAIA – As festas de aniversário de Atibaia nos anos 50

Márcio Zago

Em julho de 1950, o jornal O Atibaiense trazia em sua primeira página informações sobre as comemorações realizadas por ocasião do 285º aniversário de Atibaia. No calendário festivo, além do dia 24 de junho, dedicado ao padroeiro São João Batista, destacava-se também a celebração do dia 25, quando ocorria a tradicional Festa do Divino Espírito Santo, hoje extinta do calendário oficial da cidade. Naquele ano havia um esforço para revitalizar essa festividade que, aos poucos, vinha perdendo o prestígio das décadas anteriores. Para isso, foram introduzidos novos personagens e atrações inéditas.
Na parte religiosa, o padre Cláudio Garcia unificou os festeiros das duas comemorações e criou uma situação curiosa: reuniu quarenta e oito homens chamados João na mesma comissão, tendo João Lozasso como coordenador e João Batista Barbosa como tesoureiro. Vindos de São Paulo, dois cônegos reforçaram as solenidades religiosas, acompanhados por um coral da cidade de Jundiaí. Na parte profana, a festa também sofreu mudanças significativas.
Os inúmeros balões que marcaram as comemorações do início do século XX deram lugar a novas atrações. Além do pau de sebo, do jogo do pote, da corrida de sacos e de tantas brincadeiras tradicionais, foi apresentado pela primeira vez às crianças e aos jovens de Atibaia um aparelho que logo se incorporaria às diversões populares da cidade. Tratava-se de um brinquedo feito com três tábuas de madeira montadas em forma de prisma e fixadas sobre um suporte, também de madeira. O prisma girava com facilidade, e o desafio consistia em atravessá-lo de bruços, de uma extremidade à outra, sem cair, para alcançar o dinheiro da aposta colocado na ponta oposta.
O show pirotécnico, tradição que persistia desde o início do século XX, continuava despertando grande admiração na população, que lotava o Largo da Matriz durante as noites festivas. Outro aspecto curioso daquela comemoração foi à presença de integrantes do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade, que, a convite de João Batista Conti, estiveram em Atibaia para registrar o acontecimento. A comitiva era chefiada pelo historiador e folclorista Rossini Tavares de Lima, acompanhado de Frank Goldman, responsável por filmar e fotografar as manifestações populares, além do eletricista Joaquim Feliciano. Integrava ainda o grupo as pesquisadoras Elsa Dellier Gomes, Evanira Pereira Mendes e Jamile Japu, mulheres pouco lembradas pela historiografia do movimento folclórico brasileiro, provavelmente em razão do preconceito que relegava a participação feminina a posições secundárias naquele período. A equipe realizou um amplo registro das festas populares, sobretudo das congadas de Atibaia, mas também de uma personagem que chamou a atenção dos pesquisadores: D. Natália. O samba de D. Natália impressionou os estudiosos paulistas pela autenticidade e pela força artística. Seu bloco carnavalesco, conhecido como Bloco da Natália, era bastante popular entre os moradores da cidade.
Mas, assim como surgiu, D. Natália desapareceu de Atibaia com o passar dos anos, quase sem deixar rastros, permanecendo viva apenas na memória daqueles que testemunharam sua arte espontânea e sua presença excêntrica nas festas populares. As comemorações de 1950 revelam uma Atibaia em transformação, dividida entre a preservação das antigas tradições religiosas e populares e o desejo de renovar suas formas de festejar. Entre congadas, fogos de artifício, brincadeiras de rua e sambas improvisados, aquelas festas registraram não apenas o aniversário da cidade, mas também um retrato precioso da vida cultural atibaiense em meados do século XX. O registro do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade talvez ainda exista e só esteja esperando um pesquisador disposto a reencontrá-lo e, quem sabe, revelar parte daquilo que um dia já fomos.

 

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.