Desgaste mental é resultado da falta de reconhecimento no trabalho

Luiz Gonzaga Neto

Práticas abusivas estão associadas a danos à saúde e à identidade do trabalhador. Não por acaso, a questão da saúde mental dos trabalhadores levou o Ministério do Trabalho a alterar no final de maio a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) para ampliar a responsabilidade das empresas nesse aspecto. Já divulguei um pouco da norma aqui, lembrando que a Câmara de Atibaia precisa observar seus princípios. Casos de injustiça em ambientes de trabalho, segundo o professor de Administração Ricardo Bertoni Pompeu, causam danos ao trabalhador como consequência da falta de reconhecimento.
Em sua tese “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da justiça organizacional”, defendida na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, o professor investiga o que se entende por reconhecimento e quebra paradigmas sobre processos de avaliação e recompensas aplicados pela área de Recursos Humanos (RH) das empresas. De acordo com Pompeu, a falta de reconhecimento não pode ser atribuída meramente à má gestão, porque sua origem é estrutural e reside, por exemplo, na grande dissonância entre os manuais de RH e a vivência real de trabalho. Um bom salário ou um pacote de benefícios, portanto, podem parecer justos aos olhos da empresa – e até mesmo do trabalhador –, mas não representam, necessariamente, um reconhecimento legítimo, que deveria validar integralmente a experiência humana e pessoal, de maneira a proporcionar autonomia e dignidade ao trabalhador.
A história de Evarista (nome fictício) foi uma das que mais causaram indignação a Pompeu durante a pesquisa de campo. Ela começou a trabalhar em um supermercado aos 19 anos como ajudante de caixa e, graças ao seu empenho, foi transferida para o centro de distribuição, onde começou a produzir cartazes, ajudar na reposição e realizar outras atividades. Evarista acreditava que, quanto mais aprendesse, mais benefícios conquistaria. Mas, quando apareceu uma promoção, o chefe não a indicou, porque já contava com ela para várias funções, e Evarista ficou desanimada. A partir de então, o chefe começou a questioná-la em público, proferindo comentários como: “Você perdeu o brilho nos olhos” ou “você não está empenhada na equipe”. O assédio e a exposição fizeram com que outras pessoas passassem a dizer o mesmo, e, aos poucos, o grupo deixou de ser solidário a Evarista. Colocada “na geladeira”, ficou cada vez mais angustiada e deprimida, e seu relato revelou o quanto isso afetou a sua autoestima e identidade. O desânimo extrapolou o ambiente de trabalho e tirou sua vontade de viver.
O empregador não considera necessidades individuais nem desejos. “É o trabalhador descartável e coisificado. Isso cria uma angústia constante, um estado de alerta permanente. O corpo não aguenta. A supressão do limite humano leva ao adoecimento”, alertou o pesquisador.