HISTÓRIAS DE ATIBAIA – primeira Biblioteca Pública Municipal

PARTE 1

Em Atibaia, desde o início do século XX, houve várias tentativas de oferecer ao município esse importante bem cultural.

 

Márcio Zago

Durante muito tempo, as bibliotecas foram um dos poucos espaços públicos de acesso gratuito ao conhecimento. Em muitas cidades, especialmente no interior, constituíam praticamente o único lugar onde a população podia consultar livros, jornais e revistas numa época em que esses materiais eram caros e raros. Muitos escritores, professores e pesquisadores iniciaram sua formação frequentando esses espaços silenciosos e acolhedores.
Em Atibaia, desde o início do século XX, houve várias tentativas de oferecer ao município esse importante bem cultural. O Clube Recreativo talvez tenha sido o primeiro a conseguir, com relativo êxito, manter uma biblioteca na cidade. Outras iniciativas partiram dos professores do Grupo Escolar José Alvim, que também buscaram criar um espaço de leitura acessível à população.
Em 1916, o Padre Chico, com grande ajuda das mulheres, inaugurou o Gabinete de Leitura, que pode ser considerado a primeira experiência mais duradoura desse tipo em Atibaia. A instituição permaneceu ativa por vários anos, encerrando suas atividades em 1935. Na década de 1940, as ações ligadas à literatura promovidas pelos jovens escritores André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro, e César Mêmolo Junior, o Cesinho, voltaram a despertar na cidade a necessidade de instituir novamente uma biblioteca.
O primeiro movimento concreto partiu da Associação Atlética Cetebê, entidade que, embora priorizasse o esporte, também desenvolvia atividades sociais e recreativas em sua sede. Por volta de 1946, o então prefeito João Teixeira da Silva Braga chegou a prometer a formação da primeira biblioteca pública do município, contando com o apoio de particulares da capital. A iniciativa, porém, não se concretizou. Diante disso, o jovem escritor César Mêmolo Junior decidiu assumir pessoalmente a tarefa de levar adiante o projeto.
A primeira reunião ocorreu em junho de 1946, na sede do Aero Clube de Atibaia, que situava na Rua Visconde do Rio Branco, nº 33. Entre os primeiros sócios fundadores estavam, além do próprio Cesinha, seu amigo André Carneiro, Donozor Lino, Joaquim Vasconcelos, entre outros entusiastas da ideia. Depois de redigidos os estatutos, a nova organização foi incorporada à SADA — Sociedade dos Amigos de Atibaia, entidade que passou a garantir os recursos financeiros mínimos para sua manutenção. A SADA era uma associação voltada, entre outros objetivos, ao desenvolvimento turístico e comercial de Atibaia, liderada pelo empresário César Mêmolo, pai de Cesinha. A partir desse momento começaram a chegar as primeiras doações de livros, que se somaram ao acervo inicial formado por cerca de duzentos volumes pertencentes aos próprios fundadores.
A organização da biblioteca contou com o trabalho direto de César Mêmolo Junior e André Carneiro, responsáveis por limpar, catalogar e arquivar as obras que chegavam com frequência ao espaço que em breve seria aberto ao público. A biblioteca foi finalmente inaugurada em 24 de julho de 1947, com a presença de diversas autoridades locais e regionais. A solenidade foi aberta pelo prefeito eleito Oswaldo Urioste, que destacou em seu discurso a importância de uma biblioteca pública para o desenvolvimento cultural da cidade. Em seguida falou César Mêmolo, lembrando que naquela data também marcava dois anos de atividades da SADA, ressaltando o papel decisivo da entidade na viabilização da iniciativa.
Uma curiosidade pitoresca marcou o evento: após a cerimônia, foi servido um coquetel preparado pelo Bar Seleta, enquanto a solenidade era transmitida ao vivo pela SAFA — Serviço de Alto-Falante de Atibaia, sistema instalado na Praça da Matriz. A narração ficou a cargo dos locutores Henzo de Almeida Passos e Mário Barbosa, que levaram a inauguração aos ouvidos de quem passava pelo centro da cidade. Naquele momento, a nova biblioteca já contava com aproximadamente mil livros em seu acervo e ficava na Praça Claudino Alves, nº 23, sala 1 — um endereço modesto, mas que representava um grande passo para a vida cultural de Atibaia.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.