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Memórias do Brasil escravizado: a digitalização de cadernetas de poupança

Luiz Gonzaga Neto

A Caixa Econômica Federal e o Arquivo Nacional devem firmar Acordo de Cooperação Técnica que permitirá a digitalização de 158 cadernetas de poupança pertencentes a pessoas escravizadas no século XIX. A investigação foi iniciada após representação do movimento Quilombo Raça e Classe (QRC) ao Ministério Público Federal (MPF), que passou a apurar quais medidas a Caixa adota para organizar, catalogar e digitalizar seu acervo histórico e esclarecer o destino dos recursos depositados nessas contas após o período da escravidão.
Meu avô paterno, Seu Luizinho, que morava em Oeiras (Piauí), certamente pertenceu a esse estrato da população. Com a Lei do Ventre Livre, promulgada em 1871, o Estado brasileiro passou a permitir que pessoas escravizadas tivessem poupança em instituições financeiras. As cadernetas registram nomes, profissões, endereços e movimentações financeiras de pessoas negras que conseguiram acumular recursos por meio do trabalho como “escravizadas de ganho”, autorizadas pelos proprietários a exercer atividades remuneradas, desde que repassassem parte dos rendimentos. O dinheiro poupado representava, para muitas, a esperança de comprar a própria alforria ou a liberdade de familiares.
Os registros ajudam a compreender como parte da população escravizada utilizava o sistema financeiro da época, mesmo vivendo sob regime que a tratava como propriedade. Além das 158 cadernetas, a investigação identificou cerca de 14 mil documentos históricos que ainda aguardam tratamento técnico. A expectativa é que a digitalização ajude a reconstruir a memória da escravidão e aprofunde o debate sobre reparação histórica para a população negra