HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O Clube de Cinema de Atibaia (Parte 3)
A partir da década de 1940, o movimento cineclubista expandiu-se pelo país. Destacou-se nesse processo o Clube de Cinema de São Paulo, fundado em 1940 por intelectuais da época.
Márcio Zago
A inauguração do Clube de Cinema de Atibaia, em 28 de junho de 1950, marcou o início de uma intensa atividade cineclubista no município. O cineclubismo surgiu na França nas primeiras décadas do século XX como um movimento de espectadores interessados em discutir o cinema como manifestação artística, indo além do simples entretenimento. Os cineclubes promoviam sessões seguidas de debates, análises e reflexões sobre a linguagem cinematográfica. No Brasil, há registros de iniciativas semelhantes já em 1917, com o Cineclube Paredão, no Rio de Janeiro.
Contudo, o Chaplin Club, fundado na mesma cidade em 1928, é considerado o primeiro cineclube oficialmente organizado do país. Frequentado por intelectuais e críticos, o grupo defendia o cinema como forma de arte, promovendo a exibição de obras pouco acessíveis ao circuito comercial, como Limite (1931), de Mário Peixoto. Editou ainda a revista O Fan, a primeira publicação brasileira especializada em cinema.
A partir da década de 1940, o movimento cineclubista expandiu-se pelo país. Destacou-se nesse processo o Clube de Cinema de São Paulo, fundado em 1940 por intelectuais como Paulo Emílio Salles Gomes e Décio de Almeida Prado. Fechado pelo Estado Novo em 1941, o clube foi reorganizado em 1946 e desempenhou papel fundamental na formação de público e na valorização do cinema como expressão cultural, tornando-se um dos embriões da futura Cinemateca Brasileira. Em Atibaia, o Clube de Cinema contava com o apoio do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e da Federação dos Clubes de Cinema do Brasil. Naquele momento, o movimento cineclubista ganhava força em todo o país. Em julho de 1950 realizou-se no MASP o Primeiro Congresso de Clubes de Cinema do Brasil, promovido pelos Diários Associados por intermédio do Centro de Estudos Cinematográficos (CECSP), organismo vinculado ao museu. Seu principal objetivo foi reunir os primeiros coletivos de cinéfilos do país para estruturar o movimento cineclubista nacional.
A partir desse encontro consolidaram-se as bases para a criação da Federação Brasileira de Cineclubes, fortalecendo a exibição de filmes alternativos, o debate crítico e a formação de público para o cinema nacional fora do circuito comercial. Representando o Clube de Cinema de Atibaia, participaram do congresso André Carneiro, Dulce Carneiro, César Mêmolo Júnior, Maria Amélia Lanna e Amadeu José Lanna. A delegação apresentou teses que foram aprovadas pela mesa diretora do encontro.
Além de estimular o interesse pela linguagem cinematográfica entre o público local, o Clube de Cinema de Atibaia teve papel decisivo na formação de André Carneiro e César Mêmolo Júnior. A partir dessa experiência, ambos passaram a realizar curtas-metragens, muitos deles ambientados na cidade e interpretados por atores amadores de seus círculos de amizade e familiares. Essas produções, marcadas pela criatividade e pelo forte vínculo com Atibaia, constituem hoje importantes registros do patrimônio audiovisual e cultural do município. É o caso de Estudo de Continuidade e Movimento (1950), O Último Encontro (1951), Solidão (1951) e Estudo para um Enredo Dramático (1956), de André Carneiro. Ou ainda A Olaria (1950), A Briga, Saudade e Trágica Recordação, de César Mêmolo Júnior.
O impulso criativo proporcionado pelo cineclubismo acompanharia ambos por toda a vida. André Carneiro tornou-se referência como escritor, roteirista, pesquisador e divulgador da arte cinematográfica, enquanto César Mêmolo Júnior consolidou-se como uma das figuras mais atuantes do cinema paulista, dirigindo e produzindo dezenas de obras por meio da produtora Lynxfilm. Dessa forma, o Clube de Cinema de Atibaia não apenas ampliou o acesso local à cultura cinematográfica, mas também contribuiu para o surgimento de dois importantes nomes do audiovisual brasileiro, deixando uma marca duradoura na história cultural da cidade.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.


