HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O Clube de Cinema de Atibaia (Parte 2)
As apresentações aconteciam nos dois cinemas da cidade: o Cine República e o recém-inaugurado Cine Itá
Márcio Zago
As atividades do Clube de Cinema de Atibaia, antes mesmo de sua formalização estatutária, tiveram início com exibições gratuitas que seus organizadores denominavam sessões experimentais. As apresentações aconteciam nos dois cinemas da cidade: o Cine República e o recém-inaugurado Cine Itá. Seus proprietários, Lázaro Chiocchetti e Renato Fazzio, respectivamente, viam na iniciativa uma forma de incentivar a arte cinematográfica em Atibaia e, ao mesmo tempo, garantir o público em seus estabelecimentos. Essa foi uma das características marcantes da vida cinematográfica atibaiana: a formação de um público cativo da linguagem do cinema, frequentadores que os jornais das primeiras décadas do século XX costumavam chamar de habitués.
A primeira sessão experimental aconteceu no Cine Itá, com o filme Grandes Esperanças, de David Lean. A segunda ocorreu no Cine República, com O Beijo da Morte, de Henry Hathaway, e a terceira, também no Cine República, com A Dama do Lago, de Robert Montgomery. Tratava-se de filmes que despertavam o interesse da crítica da época, seja pela qualidade de suas adaptações, seja pelo arrojo estético. A Dama do Lago, por exemplo, inovou ao apresentar uma narrativa pelo ponto de vista da câmera, transformada em personagem.
O filme recebeu ampla cobertura no jornal O Atibaiense, que reproduziu matérias originalmente publicadas em O Estado de S. Paulo e no Diário de São Paulo por ocasião de seu lançamento na capital. As demais exibições também ganharam destaque nas páginas do periódico, que registrava comentários, análises e curiosidades sobre os filmes apresentados. Por meio dessas publicações é possível perceber a qualidade dos debates promovidos pelo Clube e a preparação de seus organizadores, que procuravam esmiuçar os mais diversos aspectos de cada obra exibida. Entre os frequentadores mais assíduos das sessões estavam José Amadeu Lanna, Dr. Eurico Pereira, Prof. Custódio Lanna, Geraldo Henrique de Souza, Lamartine Fagundes, Anísio Amim, Enzo de Almeida Passos, Dulce Carneiro, Sra. Zilda Lanna, Benedito Mussoline Vagheti, Engrácia Carneiro, Antônio Carlos Toledo Santos, Renato Moscatelli, Odete G. Carneiro, Ozanan Frederico Marra, Maria Amélia Lanna, Benedito Salin, Eliza Helena Lanna, André Carneiro, Gessi Meneses, Rubens Buller, César Mêmolo Junior, Darçy Passador, Francisco Bueno Aguiar, Wilma Alvim, José Pires Alvim e muitos outros.
Em junho de 1950, O Atibaiense anunciava a inauguração oficial do Clube de Cinema de Atibaia para o dia 28 daquele mês. A programação incluía um acontecimento que entraria para a história cultural do município: a primeira exposição coletiva realizada em Atibaia, reunindo alguns dos principais expoentes da arte moderna brasileira. Tema que será abordado em futuras matérias. O filme escolhido para marcar a inauguração oficial do Clube de Cinema de Atibaia foi Obsessão, de Luchino Visconti, considerado por muitos como o primeiro filme neorrealista italiano. O evento contou com a presença de numerosas autoridades e representantes da sociedade local.
Na ocasião, O Atibaiense definiu aquele momento nos seguintes termos: “Se houvessem, até o dia 28, céticos que não acreditassem na possibilidade de um clube de cinema em Atibaia, certamente eles estariam curvados em silêncio ante a realidade que presenciamos quinta-feira. Não era apenas um grupo de moços entusiastas a discutir arte cinematográfica. Era toda a nata da intelectualidade de Atibaia a debater ideias e problemas estéticos, num empenho altruístico e exclusivo de elevar o nível cultural da população.” Os anos seguintes confirmariam a relevância daquela iniciativa. O Clube de Cinema de Atibaia não apenas consolidaria uma ativa vida cultural em torno da arte cinematográfica, como também serviria de ponto de partida e encontro para personagens que deixariam marcas importantes na história intelectual e artística da cidade. Sua trajetória demonstra como o entusiasmo de um pequeno grupo foi capaz de mobilizar a comunidade e criar um dos mais significativos capítulos da vida cultural atibaiana.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.


