HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Música e patriotismo no 07 de setembro de 1948

Tradicionalmente, as celebrações de 07 de setembro associam-se aos feitos militares, e o desfile cívico-militar ainda hoje ocupa lugar de destaque no calendário nacional.

Márcio Zago

Para os atibaianos do passado, o dia 07 de setembro de 1948 permaneceu na memória como uma data singular. Naquele ano, a cidade testemunhou uma comemoração inédita, diferente de tudo o que até então se havia realizado. A data remete ao episódio ocorrido às margens do Riacho do Ipiranga, em São Paulo, no ano de 1822, quando D. Pedro teria selado o rompimento do Brasil com Portugal e afirmando o país como nação soberana. Tradicionalmente, as celebrações de 07 de setembro associam-se aos feitos militares, e o desfile cívico-militar ainda hoje ocupa lugar de destaque no calendário nacional.
Nas cidades do interior, contudo, essas solenidades assumem características próprias: estudantes desfilam pelas ruas em formações inspiradas na organização militar, acompanhados por bandas e fanfarras, transformando o espaço urbano em palco de civismo, música e participação popular. Foi justamente esse clima de ufanismo patriótico que Atibaia viveu naquele distante ano de 1948, quando a população presenciou, pela primeira vez, um grande desfile estudantil acompanhado por fanfarra.
O jornal O Atibaiense registrou o entusiasmo do momento: “Empolgante por todos os títulos o primeiro desfile realizado pelos alunos do Ginásio Atibaiense (…) À frente, um pelotão masculino e outro feminino de batedores ciclistas abriam alas, ostentando em suas camisas olímpicas os dísticos ‘G.A.’, do Ginásio Atibaiense. Em seguida vinham os componentes da fanfarra do estabelecimento, perfazendo o número de 14 figuras entre surdos, tambores e cornetas, todos perfeitamente treinados e cadenciados, dirigidos pelo Sr. BonanoMarafante (…)”. O desfile de estudantes em formação não era propriamente novidade em Atibaia.
O Grupo Escolar José Alvim, primeiro estabelecimento público de ensino do município, já promovia apresentações semelhantes, como demonstram registros fotográficos da época. A diferença, naquele ano, estava na expressiva quantidade de participantes e, sobretudo, na estreia da fanfarra do Ginásio Atibaiense, que causou forte impressão no público. A solenidade teve início nas dependências do próprio Ginásio, com o hasteamento das bandeiras e pronunciamentos oficiais. Em seguida, alunos e professores seguiram em marcha até o Grupo Escolar José Alvim, onde se reuniram a outros estudantes, ampliando o caráter coletivo da celebração.
Diante do prédio escolar, a programação prosseguiu, novamente tendo a música como protagonista. Desta vez, o destaque coube ao canto orfeônico apresentado pelas crianças do Grupo Escolar. Sob a orientação da professora D. Célia, os pequenos cantores chamaram a atenção pela afinação e pela desenvoltura, emocionando os presentes. Aquela apresentação integrava um projeto educacional mais amplo idealizado pelo maestro Heitor Villa-Lobos, conhecido como Canto Orfeônico, que propunha a inserção sistemática da música coral no ensino público brasileiro.
Impulsionado pelo governo de Getúlio Vargas a partir de 1933, o programa tornou-se gradualmente obrigatório nas escolas do país. Para além de sua dimensão artística, o canto orfeônico possuía também caráter pedagógico e simbólico: buscava disciplinar, integrar e fortalecer o sentimento de pertencimento nacional entre crianças e jovens, utilizando o canto coletivo como instrumento de formação cívica. Assim, naquela comemoração de 07 de setembro de 1948, música e patriotismo caminharam lado a lado. Entre marchas, fanfarras e vozes infantis entoadas em coro, Atibaia experimentava não apenas uma celebração cívica, mas também um momento em que a escola, a cultura e o ideal de nação se encontravam nas ruas da cidade, marcando a memória coletiva de toda uma geração.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.