HISTÓRIAS E ATIBAIA – Associação Cultural Castro Alves e a poesia local (parte 2)

A instalação de um núcleo da entidade na cidade, presidido pelo Dr. Amadeu Mêmolo Neto, reforçava esse propósito e revelava o empenho de parte da sociedade atibaiense em associar desenvolvimento urbano, prestígio intelectual e promoção cultural.

 

Márcio Zago

 

Conforme abordado nos artigos anteriores, a criação da Associação Cultural Castro Alves, em Atibaia, inseria-se em um projeto mais amplo, no qual setores da elite local buscavam projetar o município para além de seus limites regionais, consolidando sua imagem como estância turística e também como referência cultural. A instalação de um núcleo da entidade na cidade, presidido pelo Dr. Amadeu Mêmolo Neto, reforçava esse propósito e revelava o empenho de parte da sociedade atibaiense em associar desenvolvimento urbano, prestígio intelectual e promoção cultural. Filho de César Mêmolo e irmão de Cesinha, Amadeu Mêmolo Neto pertencia a uma família de grande influência na vida social, econômica e cultural do município. Sua presença à frente da associação não era casual.
Ela simbolizava o encontro entre uma elite interessada em modernizar e moldar a imagem da cidade e uma geração de jovens que vivia, naquele momento, um dos períodos mais intensos e férteis da produção cultural local. Nesse contexto, a Associação Cultural Castro Alves não se limitava a promover homenagens ao poeta baiano. Sua atuação em Atibaia também abria a possibilidade de criar um espaço simbólico de legitimação para uma vocação literária já em curso no município, dando visibilidade a um grupo que encontrava na poesia um de seus principais meios de expressão.
Mais do que um gesto simbólico, o empresariado local ofereceu à cidade a perspectiva de um espaço físico real dedicado à poesia: a Casa do Poeta Castro Alves, um empreendimento difícil de imaginar nos dias de hoje.
O terreno para sua construção, localizado nas proximidades do Ginásio Atibaiense, foi doado pela Imobiliária Gardênia em uma cerimônia solene realizada no Salão Nobre do Ginásio, com a presença de autoridades da região, estudantes, representantes da diretoria do núcleo regional e da seção paulista da Associação Cultural Castro Alves.
Entre os convidados estava o poeta Menotti Del Picchia, que proferiu uma conferência sobre Castro Alves e, ao mesmo tempo, sobre o futuro que se projetava para Atibaia. Em sua fala, deixava transparecer o entusiasmo que cercava a cidade naquele momento: “Irei dizer aos companheiros de lides espirituais como Atibaia, num clima divino, com um céu azulíneo, num local que é uma poesia por si só, pensou no poeta e vai construir a sua casa sob a cúpula do nome Castro Alves”.A Casa do Poeta Castro Alves, ou simplesmente Casa do Poeta, como passou a ser chamada, foi detalhada em longa entrevista concedida por Amadeu Mêmolo Neto ao jornal O Atibaiense.
Nela, o diretor da associação procurava esclarecer o sentido e a abrangência do projeto: “Inicialmente, gostaria de declarar que a Associação Cultural Castro Alves não é uma associação exclusivamente de poetas ou escritores, como à primeira vista pode parecer. É antes uma associação destinadas a cultuar os poetas nacionais e mesmo internacionais (…)”. AmadeuMêmolo prosseguia descrevendo a ambição do empreendimento: “Pretendemos dotar a “Casa do Poeta” com todos os requisitos necessários para que os poetas, mediante inscrições antecipadas, venham para aqui descansar de suas tarefas intelectuais, no contato com a nossa prodiga natureza, coberto pelo nosso céu bem atibaiano, vigiado pela majestosidade da Pedra Grande e sentindo-se empolgado pelo panorama da Gardênia, sintam a necessidade de extravasar, em versos ou em prosas, o que vibra em seu íntimo, como já fizeram, quando por aqui andaram, Rodrigues de Abreu, que como sabe o senhor escreveu parte da ‘Casa Destelhada’ aqui, e depois Menotti Del Picchia, Martins Fontes, Guilherme de Almeida, Amadeu Amaral, etc., todos entusiasmados pelo que viram”.
A proposta revelava não apenas o desejo de homenagear Castro Alves, mas a ambição de transformar Atibaia em refúgio e laboratório da criação literária. A cidade era apresentada como espaço de contemplação, inspiração e prestígio, onde a paisagem natural, o clima e a tranquilidade se converteriam em matéria poética. Havia, por trás do projeto, uma clara tentativa de inscrever Atibaia no mapa simbólico da cultura paulista, transformando-a em destino de escritores e em cenário propício à consagração intelectual. Uma deliciosa utopia.