HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Um Santo Cruzeiro na Pedra Grande?

O projeto ia além: previa também a abertura de uma estrada que, “com todo o conforto possível”, ligaria a cidade ao local, facilitando o acesso de moradores e turistas. 

Márcio Zago

Em 1947, o jornal O Atibaiense publicou uma nota, no mínimo, curiosa. Nela, anunciava-se a intenção do recém-empossado prefeito, Dr. Oswaldo Urioste, de erguer um “majestoso cruzeiro, revestido com pintura fosforescente, no alto da Pedra Grande, dominando quase toda a região e visível a grande distância por aqueles que chegam a Atibaia”.
O projeto ia além: previa também a abertura de uma estrada que, “com todo o conforto possível”, ligaria a cidade ao local, facilitando o acesso de moradores e turistas. A estrutura seria construída em cimento armado, em grandes proporções, sob a responsabilidade de um técnico especializado em obras dessa natureza.
Como se vê, a ideia de intervir na paisagem mais emblemática do município está longe de ser recente. A inspiração era evidente: o monumental Cristo Redentor, erguido no alto do Morro do Corcovado e já consagrado como símbolo do Rio de Janeiro. Em Atibaia, a proposta despertou entusiasmo em parte da população e ajudou a projetar a imagem do prefeito sanitarista, que necessitava de apoio popular, afinal, não fora eleito, mas indicado ao cargo pelo então governador Adhemar de Barros. Para além do potencial turístico, havia também uma dimensão simbólica significativa.
Os artigos publicados à época destacavam uma tentativa de reaproximação entre o Estado e a Igreja como elemento legitimador da proposta. Citava-se, por exemplo, a Constituição promulgada no ano anterior, “votada em nome de Deus”, e a solenidade de entronização da imagem de Cristo Crucificado no recinto da Assembleia Constituinte do Estado. O próprio O Atibaiense passou a cobrar um posicionamento do clero local, pressionando a Igreja a aderir à ideia.
Embora Atibaia sempre tenha mantido forte ligação com a tradição católica, jamais se consolidou como destino de turismo religioso, ao contrário de cidades como Pirapora do Bom Jesus ou Perdões. É possível que a proposta do cruzeiro buscasse justamente aproximar o município desse circuito, atraindo também o apoio de um segmento social influente.
Mas, assim como surgiu, a ideia desapareceu. Em pouco tempo, o projeto do “Santo Cruzeiro” caiu no ostracismo e sumiu das páginas do jornal. Tudo indica que se tratava de uma proposta inviável, diante dos limitados recursos municipal. O mais provável era trata-se de uma estratégia de promoção política do que de um plano concreto, especialmente em um momento em que o prefeito enfrentava pressões por sua exoneração. Se fosse hoje, além de uma proposta improvável sob o ponto de vista econômico, teria ainda um agravante decisivo: o impacto ambiental.
À época, inexistia um conceito consolidado de preservação que considerasse a proteção dos ecossistemas e o compromisso com as gerações futuras. Intervenções dessa natureza eram vistas como sinais de progresso. Hoje, ao contrário, a Pedra Grande é reconhecida não apenas como cartão-postal, mas como patrimônio natural a ser protegido, lembrando-nos de que a paisagem, antes de ser moldada, precisa ser compreendida e respeitada.

 

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.