HISTÓRIAS DE ATIBAIA – A primeira Biblioteca Pública Municipal (parte 2)
Márcio Zago
Da iniciativa dos jovens escritores César Mêmolo Junior (o Cézinha) e André Carneiro nasceu a primeira Biblioteca Pública Municipal de Atibaia. Em pouco tempo, a ainda modesta coleção foi incorporada ao patrimônio da Sociedade dos Amigos de Atibaia (SADA), entidade jurídica liderada pelo empresário César Mêmolo, pai de Cézinha. Inaugurada em julho de 1947, a biblioteca logo enfrentaria seus primeiros desafios para garantir a continuidade de suas atividades.
Inicialmente instalada na sede da própria SADA, na Praça Claudino Alves, sua trajetória foi alterada poucos meses depois. Em março de 1948, com a construção do Ginásio Atibaiense, também iniciativa do empresário César Mêmolo, a entidade transferiu-se para o novo prédio, levando consigo o acervo da biblioteca, que passou a funcionar nas dependências do ginásio. De acordo com registros da época, a mudança ocorreu por dois motivos principais. De um lado, a solicitação do proprietário do imóvel anteriormente ocupado, que requereu a devolução do espaço cedido à associação; de outro, a necessidade do recém-inaugurado ginásio, que carecia de uma biblioteca para atender seus alunos.
A transferência, no entanto, não se deu sem controvérsias. Diante da repercussão, a SADA publicou, nas páginas do jornal O Atibaiense, um comunicado à população, acompanhado de um extenso relatório sobre a situação da biblioteca. O documento, assinado por seu Conselho Diretor, apresentava as seguintes deliberações:
A) Transferir provisoriamente a sede da Sociedade (SADA) para uma das salas do Ginásio Atibaiense, gentilmente cedida para esse fim, diante das dificuldades de obtenção de novo espaço e mobiliário, entre outros fatores relevantes.
B) Transferir também a Biblioteca Pública, patrimônio da Sociedade, para o mesmo local, preservando seu caráter público; ficam, entretanto, suspensos os empréstimos de livros e o recebimento de mensalidades, devendo ser restituídos os valores pagos antecipadamente pelos contribuintes.
C) Repudiar, por unanimidade, os termos do protesto publicado na imprensa local contra os bibliotecários, desagravando César Mêmolo Junior e André Carneiro, reconhecidos pelo Conselho como responsáveis criteriosos e dignos de plena confiança.
D) Nomear uma comissão composta por César Mêmolo, André Carneiro, Luiz Passador e César Mêmolo Junior, com a finalidade de reorganizar o quadro social da SADA e regularizar a situação dos associados em atraso.
Como se observa, a transferência do acervo da Praça da Matriz para o Ginásio Atibaiense gerou reações e descontentamentos entre setores da sociedade local, incluindo vereadores da época e mesmo pessoas ligadas à manutenção da biblioteca.
A polêmica se desenvolveu por meio de artigos publicados no jornal Gazeta de Atibaia, aos quais o Atibaiense respondeu em tom de defesa. Para compreender plenamente esse episódio, é necessário considerar a própria dinâmica de formação da biblioteca e seus desdobramentos, tema que será aprofundado em textos posteriores. Ainda assim, o ocorrido já evidencia que, desde seus primeiros anos, a biblioteca esteve diretamente vinculada às articulações institucionais e às tensões do meio cultural local, revelando não apenas o entusiasmo de seus idealizadores, mas também as dificuldades práticas de sustentar uma iniciativa pública em consolidação, com disputas de protagonismo no âmbito da oficialidade, um traço que, em muitos aspectos, ainda se faz presente.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


