“Educar meninos para serem homens melhores no futuro”

A importância do papel familiar na educação de meninos como homens do amanhã.

Anna Luiza Calixto

 

Quatro jovens e um adolescente estupraram coletivamente a ex-namorada do último, uma menina de 17 anos que agora carrega a cicatriz da brutalidade humana na sua mais perversas forma: a violência sexual.
Para além dos pormenores desse caso que provocou embrulho no estômago de tanta gente durante a última semana, é importante lembrar: nenhum homem acorda adulto e decide aleatoriamente violentar uma mulher. Crimes por motivos de gênero são produto não só da perversidade do agressor, mas do tecido social em que essa crueldade foi embrionada.
A certeza da impunidade, a culpabilização da vítima, a minimização do sofrimento das famílias, a perpetuação do pacto do silêncio… Enfim, tantos fatores disfarçados sob o pretenso verniz da brotheragem, camaradagem, irmandade masculina.
A reflexão de hoje nos convida a olhar para a violência como o apogeu de um processo contínuo e diário de naturalização da barbárie como paisagem; da violência como “mais um dia comum”. Nossa indignação manifesta nessa reação quase física de revolta e perplexidade é, na verdade, saudável. É sinal de que não nos desumanizamos a ponto de nos acostumarmos com esse pandemônio.
E a família, como célula central capaz de gestar a visão de mundo dos indivíduos, tem uma responsabilidade e tanto na educação de meninos para serem homens melhores e mais humanos: é ali que observam como as mulheres são tratadas; que aprendem sobre divisão das tarefas domésticas; que internalizam a forma como homens conversam e escutam (se escutam) mulheres; que escutam o pai comentando sobre a manchete de estupro no noticiário… Essa pode ser uma pedagogia silenciosa que refuta práticas misóginas e comportamentos sexistas.
A equação disfuncional expressa explicitamente em ditos populares como “prendam suas cabritas que o meu bode tá solto” estimula meninos a se portarem como ameaças e, pior, a se orgulharem disso. Esse desequilíbrio produz consequências que vão muito além da infância.
A educação emocional dos meninos é uma questão central na prevenção da violência de gênero e tudo isso começa em casa.
Longe de mim defender a transferência absoluta dessa responsabilidade para as famílias, mesmo porque estamos colocando em tela um fenômeno complexo, atravessado por desigualdade social, ausência de políticas públicas e fragilidades institucionais. Mas ignorar o papel da socialização masculina seria fechar os olhos para uma parte fundamental do problema.
Sabemos que não existe passe de mágica e que um processo como esse não acontece de um dia para o outro, mas exige coerência entre discurso e prática. Crianças aprendem muito mais observando do que ouvindo, como esponjas mediante estímulos de variadas formas.
Essa escalada vertiginosa de casos de violência contra meninas e mulheres no Brasil sugere um cenário epidêmico e sabemos o porquê, inclusive já falamos aqui na Coluna sobre esse efeito dominó. Mas podemos forçar essa curva a descer a partir da forma como ensinamos nossos filhos a existir no mundo.
Todo agressor foi um menino um dia, então não é exagero nenhum afirmar que estamos diante dos homens do amanhã, cabendo a TODOS nós definir como se comportarão diante de meninas e mulheres que têm o direito de existir num mundo menos cruel e bárbaro. Parem de nos matar.