Pedagogia da crueldade: violência incorporada e aprendida através de um método

O conceito de Rita Segato demonstra como a violência pode se tornar método.

 

 

 

 

 

 

 

 

Anna Luiza Calixto

A antropóloga argentina Rita Segato contorna uma imagem cheia de desconforto, mas profundamente necessária. A pedagogia da crueldade revela que a violência é incorporada e aprendida através de um método. Um sistema que tem a barbárie como projeto e molda subjetividades para naturalizar desigualdades e vulnerabilidades como se fossem intrínsecas.
É uma lógica estrutural, mas pior que isso: é estruturante. Delineia relações e posturas que fazem da crueldade paisagem. Ela não surge de impulsos isolados, masé produzida e pulverizada. Está nas manchetes que decidem quem é “adolescente” e quem é “menor”, está no atravessar da rua pela marginalização do corpo preto e periférico, está na conversão de pessoas em produtos numa lógica necroliberal.
Segato mostra como somos doutrinados para ver a crueldade sob uma lente opaca e distante. Um treinamento que nos acostuma a ver sofrimento sem se afetar, que transforma o outro em objeto, que legitima a dominação como se fosse ordem natural das coisas.
A crueldade aqui torna-se uma tecnologia de manutenção do poder nas mãos de quem ele se concentra. Ela nos convence que o sofrimento do outro não é da minha conta, é resultado do fracasso dele, que se esforçou pouco. Existe muito sadismo nos códigos meritocráticos.
Essa pedagogia reafirma papéis e passa um recado: “É até aqui que você pode vir, não mais que isso.” Não raro, os sujeitos que ousam ir além são alvejados de julgamentos, tornam-se dissidentes.
Desobedecer essa pedagogia é um gesto político.Segato não nos entrega soluções fáceis, mas elabora um diagnóstico que desloca o problema da logica individualista que desresponsabiliza o sistema.
Como já dissemos aqui antes: o privado é político. Já nos ensinava Belchior, “sempre desobedecer, nunca reverenciar.” Questionar é manter acesa nossa humanidade, nosso senso de urgência, nossa empatia. Eu e você podemos (e vamos) riscar esse fósforo.