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HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Congadas, cavalhadas e o Peti nos festejos natalinos

Márcio Zago

Em dezembro de 1951, uma crônica publicada no jornal O Atibaiense destacava as transformações ocorridas nos festejos natalinos daquele período em comparação com as celebrações realizadas no século anterior. Apesar das mudanças observadas ao longo do tempo, alguns elementos permaneceram presentes em ambas as épocas, especialmente as congadas e as cavalhadas, manifestações que continuam integrando as festividades até os dias atuais.
Essa permanência atravessa gerações e já se estende por quase três séculos, justificando plenamente o uso do termo “tradição”. A longevidade dessas manifestações demonstra não apenas a força da herança cultural local, mas também a capacidade da comunidade de preservar e renovar suas referências identitárias ao longo do tempo. É interessante observar que o cronista estabelecia uma distinção entre as duas manifestações.
As congadas eram associadas à expressão popular e à alegria dos negros, enquanto as cavalhadas representavam um espaço de exibição social das elites locais. Nas palavras do autor: “Se as congadas eram a válvula de escapamento à alegria dos negros, a cavalhada era o palco dos que procuravam exibir seus trajes de cavaleiro, seus belos animais, procurando mostrar-se às difíceis damas de outrora, ou poder jogar uma flor à namorada, debruçada na janela, com a liberdade que só as grandes festas lhe davam.”A crônica destaca ainda uma peculiaridade das festas natalinas entre o final do século XIX e o início do século XX, prática característica daquele período em Atibaia: a Caixa do Peti. Peti era o apelido de Sebastião Eufrásio de Lima, simpático sacristão que viveu em um cômodo da Igreja Matriz até seu falecimento, em 1932. Figura popular e muito estimada pela população, deixou saudades entre seus contemporâneos pelo caráter singular que imprimiu às celebrações natalinas durante muito tempo. Todo ano, nove dias antes do início das festividades, oPeti tomava sua caixa, cuidadosamente polida e preparada, e saía pelas ruas da cidade tocando o instrumento à sua maneira. Percorria a Rua José Lucas, detinha-se no Largo do Rosário, onde intensificava as batidas por longo tempo, e depois retornava pelo mesmo caminho até recolher-se. Essa forma original de anunciar a proximidade das festas repetiu-se por décadas e marcou profundamente a memória coletiva dos atibaienses.
Não por acaso, após a morte de Peti, muitos sentiram que o silêncio das ruas se tornara mais pesado, como se uma das vozes mais características do Natal da cidade tivesse desaparecido para sempre. Outro personagem lembrado pelo cronista foi Caetano das Pedras, importante mestre das congadas e figura de grande prestígio entre os participantes das festividades. Sobre ele, escreveu: “Meigo, bondoso, submisso como escravo que fora, o velho Caetano, antes vendedor de amendoim, tornava-se, nas festas, com aquela doçura no falar, no atender, na cortesia de fino quilate, agora parecia tornar-se angelical, tão concertada, tão afinada como está o som da viola, o ponto culminante, a atenção de todos.”Ao término das festividades, as congadas entoavam uma cantiga de despedida que atravessou o tempo e ainda hoje pode ser ouvida por meio da Congada Rosa:
Adeus, adeus
Adeus que vou s’imbora
Minha falta ninguém sente
Ninguém sente, ninguém chora.
Esses versos, segundo o cronista, provocavam uma sensação difícil de definir, semelhante àquela deixada pela Caixa do Peti: “deixava uma coisa esquisita dentro da alma, que não era bem saudade, e nem tristeza, mas que ficava a retinir no cérebro, até que o tempo apagasse…” Mais de setenta anos depois da publicação da crônica, as festas natalinas continuam a reunir manifestações que remontam a um passado distante. No entanto, as pessoas que lhes davam vida pertencem ao campo da memória enquanto novos personagens surgiram. A diferença é que hoje poucos se detêm para escutar o canto singelo que brota da alma do povo, mas é nele que permanece uma parte essencial da história e da identidade cultural de Atibaia.

 

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.