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Quando a tempestade passa, a engenharia continua

Os desastres climáticos deixaram de ser exceção. Em poucos meses, cidades paulistas como Ribeirão Preto e Mongaguá enfrentaram prejuízos milionários, interrupção de serviços públicos e, o mais grave de tudo, perdas de vidas. A pergunta já não é se novos eventos climáticos extremos vão acontecer. A questão é outra: nossas cidades estarão preparadas quando eles chegarem?

 

Por Vinicius Marchese*

 

Essa discussão não é sobre um problema do futuro. É sobre realidade.

O Brasil possui 5.570 municípios. Somente o estado de São Paulo reúne 645 cidades, cada uma com características, desafios e vulnerabilidades próprias. Todas precisam adaptar sua infraestrutura para responder a uma realidade em que chuvas intensas, vendavais e outros eventos extremos se tornam cada vez mais frequentes.

No fim de julho, a região de Ribeirão Preto foi atingida por um temporal com rajadas de vento superiores a 120 km/h. O resultado foi um dos maiores danos já registrados na infraestrutura elétrica paulista: torres de transmissão comprometidas, centenas de postes derrubados, hospitais com o funcionamento afetado, escolas sem aulas e milhares de pessoas sem energia.

Poucos meses antes, em Mongaguá, no litoral paulista, as chuvas provocaram mais de R$7 milhões em prejuízos. Escolas foram danificadas, equipamentos públicos sofreram avarias e centenas de famílias foram afetadas. Para acelerar a recuperação, a prefeitura contou com o apoio técnico do Crea-SP na realização de vistorias, laudos e avaliações que subsidiaram os pedidos de recursos aos governos estadual e federal.

Esse caso reforça uma convicção que construímos nesses anos rodando o Estado por conta da nossa atuação no Crea e Confea: a engenharia não pode ser chamada apenas depois da tragédia. Ela precisa fazer parte do planejamento das cidades antes que ela aconteça.

Quando uma prefeitura entende a importância de profissionais técnicos à frente de suas secretárias ou de parcerias com entidades que podem oferecer esse apoio, consegue avaliar riscos com mais rapidez, elaborar laudos consistentes, orientar a reconstrução e tomar decisões mais seguras para proteger a população. A engenharia precisa estar presente dentro do poder público, é ela que salva vidas.

Durante muito tempo, medimos desenvolvimento pela quantidade de obras entregues. Hoje, esse indicador já não basta. Uma cidade preparada é aquela capaz de manter hospitais funcionando, preservar o abastecimento de energia, garantir a mobilidade, proteger as telecomunicações e assegurar os serviços públicos essenciais mesmo diante de uma emergência.

Também precisamos ampliar o conceito de cidade inteligente. Durante anos, associamos essa ideia à conectividade, aos sensores e à digitalização dos serviços públicos. Tudo isso é importante, mas tecnologia, sozinha, não impede uma tragédia.

 

Uma cidade inteligente também precisa ser uma cidade preparada para proteger as pessoas.

Isso significa investir em sistemas de drenagem mais eficientes, ampliar áreas permeáveis, preservar cursos d’água, proteger encostas, fortalecer a infraestrutura elétrica, utilizar sistemas de monitoramento, revisar planos de contingência e incorporar critérios de adaptação climática em cada novo projeto público.

Os investimentos mais importantes, porém, quase nunca aparecem. Limpar galerias de drenagem, realizar a poda preventiva de árvores próximas à rede elétrica, atualizar mapas de risco ou revisar planos de emergência dificilmente rendem inaugurações. Mas são justamente essas ações que evitam prejuízos bilionários e, principalmente, salvam vidas.

Segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), repercutido pela CNN Brasil, 95,1% dos municípios brasileiros registraram algum desastre ambiental entre 2013 e 2024, acumulando prejuízos superiores a R$ 732 bilhões. Os eventos extremos deixaram de ser uma exceção para se tornarem parte da rotina da gestão pública.

O Brasil evoluiu na resposta às emergências, mas ainda investe muito mais na reconstrução dos danos do que na prevenção dos riscos. Precisamos mudar essa lógica.

Adaptar nossas cidades deve ser uma política permanente de infraestrutura. Isso exige uma atuação coordenada entre União, estados, municípios e entidades técnicas, garantindo que cada cidade tenha acesso ao conhecimento necessário para planejar, prevenir e responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

A engenharia não pode entrar em cena apenas quando o desastre já aconteceu. Ela precisa estar presente na elaboração dos planos diretores, na ocupação do solo, nos projetos de drenagem, na proteção da infraestrutura crítica e em todas as decisões que definem o futuro das cidades.

As mudanças climáticas continuarão impondo desafios. O que pode mudar é a nossa capacidade de enfrentá-los.

Quando planejamento, ciência e engenharia trabalham juntos, as cidades deixam de apenas reagir às tragédias e passam a estar preparadas para enfrentá-las.

Esse é o futuro que precisamos construir.

Vinicius Marchese é pré-candidato a deputado federal por São Paulo, engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Confea e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.