O que os olhos não veem, mas as crianças sentem
Quando a voz da criança se cala, o corpo grita o que ela está enfrentando.

Nem toda criança que sofre violência consegue contar o que está vivendo. Muitas não têm ainda o vocabulário para nomear e elaborar o que sentem, outras têm medo, vergonha ou foram convencidas de que o silêncio é a única saída possível. Mas o corpo e o comportamento infantil raramente mentem. Quando as palavras faltam, é comum que a violência se manifeste de outras formas: uma queda brusca no rendimento escolar, agressividade repentina, isolamento social, choro sem motivo aparente, medo de determinadas pessoas ou lugares, regressão a comportamentos infantis já superados… Sinais que traduzem pedidos de socorro.
A escola ocupa um lugar único na vida de crianças e adolescentes, sendo o espaço onde passam boa parte do dia, constroem vínculos com adultoesparadrapo além do núcleo familiar e suas rotinas podem ser acompanhadas de perto, dia após dia. Por isso, professores e toda a equipe pedagógica têm uma posição privilegiada; uma luta para perceber mudanças que, em outros contextos, passariam despercebidas. Não se trata de transformar educadores em investigadores ou psicólogos, mas de reconhecer que eles são, muitas vezes, os primeiros adultos capazes de notar que algo não vai bem.
É importante dizer com clareza: nenhum sinal isolado comprova, por si só, que uma criança está sofrendo violência. A leitura precisa ser cuidadosa, contextualizada e feita, sempre que possível, em conjunto com a rede de proteção intersetorial. O que se pede à escola não é um diagnóstico, mas a atenção e a disposição de observar com cuidado, acolher sem julgar e não naturalizar mudanças bruscas de comportamento como se fossem simples oscilações inerentes ao processo de desenvolvimento.
Professores não nascem sabendo identificar sinais de violência, e não deveriam ser cobrados por isso sem apoio. Cabe às redes de ensino, aos municípios e aos conselhos de direitos investir em capacitação continuada, para que educadores se sintam seguros ao reconhecer indícios de abuso, negligência ou exploração, e principalmente seguros para saber o que fazer a partir daí. Que fique claro: nenhuma escola precisa investigar, nem confrontar a família, muito menos precisa ter certeza absoluta. Precisa comunicar aos órgãos responsáveis, como o Conselho Tutelar, e permitir que a rede de proteção faça seu trabalho de gerir o cuidado, enquanto a rede de segurança atua na investigação.
Pais, mães e responsáveis estão em posição de observar mudanças de comportamento em casa, e devem ser incentivados a levar essas observações a sério, sem medo de buscar ajuda ou de conversar com a escola quando algo parecer fora do comum. A comunidade escolar como um todo, incluindo funcionários, merendeiras, porteiros e motoristas de transporte escolar, também pode ser parte dessa rede de escuta, desde que devidamente orientada.
Escutar o comportamento infantil como linguagem exige mudança de postura. Significa substituir perguntas como “por que essa criança está dando trabalho?” por “o que essa criança está tentando me dizer?”. Essa mudança de olhar não resolve sozinha o problema da violência contra crianças e adolescentes no Brasil, masé um passo essencial para que menos casos passem despercebidos.
Abrir os olhos para perceber e os ouvidos para entender é o que nos torna humanos a ponto de honramos a criança que nos escolheu como adultos de confiança.
Anna Luiza Calixto é escritora, fundadora do Projeto Bem me quer, cientista social e educadora sexual.


