HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O Clube de Cinema de Atibaia (Parte 1)
O texto convocava nominalmente algumas pessoas para a reunião inaugural, que seria realizada na redação do jornal literário Tentativa, localizada na Rua Benedito Almeida Bueno, nº 5.
Márcio Zago
Em junho de 1950, o jornal O Atibaiense publicou uma pequena nota anunciando a criação do Clube de Cinema de Atibaia. O texto convocava nominalmente algumas pessoas para a reunião inaugural, que seria realizada na redação do jornal literário Tentativa, localizada na Rua Benedito Almeida Bueno, nº 5. No mesmo local, em edificações próximas, funcionavam também a loja de ferragens Recaredo e a residência da família Carneiro. Segundo a nota, “a reunião será franca, podendo a ela comparecer os interessados, que também se tornarão, pela presença, sócios fundadores do Clube. Esta associação será feita em bases tais que não exigirá nenhuma contribuição monetária dos sócios, pois para o seu desenvolvimento conta com o apoio do Museu de Arte de São Paulo e da Federação dos Clubes de Cinema do Brasil”. Na edição seguinte, O Atibaiense divulgou os nomes dos sócios fundadores: Maria Amélia Lanna; as irmãs Maria Francisca, Odete, Odila e Dulce Carneiro; Luzia Chaves; André Carneiro; Geraldo Henrique de Souza; Fernando Silveira; Benito MussolineVaghetti; César Mêmolo Júnior; Amadeu Duarte Lanna; João Luiz Chaves e José Roberto Barreto. A iniciativa tinha como objetivo promover sessões mensais de filmes considerados artísticos pelos organizadores, sempre acompanhadas de comentários e debates. As exibições ocorreriam nos dois cinemas da cidade, o Cine República e o recém-inaugurado Cine Itá.
Os filmes seriam anunciados antecipadamente nas páginas de O Atibaiense, por meio da coluna “Cinema Arte”, que publicaria artigos, referências e análises sobre as obras selecionadas. A criação do primeiro cineclube de Atibaia não surgiu por acaso. Ela refletia uma tradição já consolidada na cidade: a forte ligação de sua população com o cinema. Sob esse aspecto, Atibaia pode ser considerada pioneira. Menos de oito anos após a invenção do cinematógrafo, marco tradicionalmente atribuído aos irmãos Lumière, ocorreu na cidade a primeira exibição pública de cinema, realizada no Teatrinho do Mercado, em 05 de julho de 1903.
A esse episódio somam-se o início das exibições comerciais em 1910, a construção das primeiras salas de projeção, logo em 1911 e a atuação do visionário Deoclides Freire, personagem fundamental para a história da cinematografia local nas primeiras décadas do século XX. Os idealizadores do Clube de Cinema de Atibaia — André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro e César Mêmolo Júnior —desenvolveram, a partir da década de 1940, uma intensa atuação ligada ao cinema, paralelamente ao trabalho literário que já realizavam com destaque. Inicialmente, dedicaram-se à crítica cinematográfica, publicando resenhas e comentários sobre filmes recém-lançados nas páginas de O Atibaiense.
A partir dos anos 1950, porém, ampliaram sua atuação para além da difusão cultural e da formação de público, passando a se dedicar também à produção cinematográfica. André Carneiro e César Mêmolo produziram diversos curtas-metragens que participaram de importantes mostras e concursos nacionais e internacionais, conquistando premiações e reconhecimento. Mais tarde, César Mêmolo criaria a Lynxfilm, considerado a mais importante produtora cinematográfica de seu período e responsável pela realização de grande parte dos anúncios publicitários produzidos nos primórdios da televisão brasileira. A tradição cineclubista da cidade voltaria a ganhar destaque na década de 1980, com a criação do Cineclube Inter-Ação, iniciativa do multifacetado artista Euclides Sandoval. Levando sessões gratuitas a diferentes pontos do município, o projeto nasceu de um movimento ecológico que teve papel decisivo no tombamento da Pedra Grande.
Além da exibição de filmes, o cineclube também promovia debates e rodas de conversa ao final das sessões, desenvolvendo um importante trabalho de conscientização política e ambiental junto à comunidade.Todos esses elementos contribuíram para a formação de um ambiente cultural favorável ao surgimento do Clube de Cinema de Atibaia. Mais do que oferecer uma alternativa de lazer, a iniciativa buscava ampliar o olhar do público para além do cinema de entretenimento, promovendo o contato com obras de reconhecido valor artístico e cultural e estimulando a reflexão crítica sobre a linguagem cinematográfica.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.


