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HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Por falar em futebol, Arthur Friedenreich em Atibaia

Em 1951, o jornal O Atibaiense, por meio da coluna Notas Esportivas, publicou uma entrevista realizada por Constantino Simões de Lima com aquele que era apontado como o maior craque do futebol nacional.

Márcio Zago

Embora esta coluna seja dedicadaà memória cultural de Atibaia, vez ou outra surgem temas que, à primeira vista, parecem distantes desse universo. O futebol é um deles. No entanto, quando um dos maiores nomes da história do esporte brasileiro cruza o caminho da cidade, o assunto passa a fazer parte de nossa memória local e, por que não, de nossa memória cultural, já que a cultura é ampla e engloba as mais diversas manifestações da vida social. Ainda mais em clima de Copa do Mundo. É o caso de Arthur Friedenreich, o lendário atacante considerado por muitos historiadores a primeira grande estrela do futebol brasileiro, cuja trajetória guarda uma passagem por Atibaia.
Em 1951, o jornal O Atibaiense, por meio da coluna Notas Esportivas, publicou uma entrevista realizada por Constantino Simões de Lima com aquele que era apontado como o maior craque do futebol nacional. Lembrando que naquele tempo não se ganhava dinheiro com o esporte e os craques estavam longe de ser consideradas celebridades. A conversa aconteceu no Hotel São João, um antigo prédio localizado atrás da Igreja Matriz, onde o jogador estava hospedado. Vale lembrar que Friedenreich pertenceu a uma geração anterior às Copas do Mundo.
Seus maiores feitos ocorreram antes da consolidação do torneio mundial, razão pela qual seu nome é menos associado aos Mundiais do que os de Pelé, Garrincha ou outros ídolos das gerações seguintes. Soma-se o fato de que, na época, não havia a profusão de imagens para perpetuar as jogadas, como hoje. Ainda assim, sua importância para o futebol brasileiro é imensa. Durante décadas, foi considerado o maior artilheiro da história do esporte, com uma quantidade de gols que, segundo diversas fontes, ultrapassaria a marca posteriormente atribuída a Pelé. Outra lenda que o cercava dizia respeito à sua impressionante eficiência nas cobranças de pênalti: afirmava-se que praticamente não desperdiçava uma cobrança.
Uma rápida pesquisa na internet revela outra faceta importante de sua trajetória. Em uma matéria intitulada “Luta contra a discriminação racial no Brasil”, destaca-se que, apesar de ser o principal jogador do país e autor de conquistas memoráveis pela Seleção Brasileira, Friedenreich enfrentou o racismo presente na sociedade e nos clubes das primeiras décadas do século XX. Conhecido como “Fried” ou “El Tigre”, o jogador era filho de um imigrante alemão com uma mulher negra brasileira. Em um período em que o preconceito racial limitava a participação de atletas negros e mestiços em diversas esferas da sociedade, sua carreira tornou-se também um símbolo de superação. Sobre Atibaia, a entrevista publicada pelo O Atibaiense registra algumas impressões do craque. Questionado sobre o campo da Caixa d’Água (local onde hoje se encontra o Clube São João), respondeu:
— Digo, sem receio de exagerar, que Atibaia possui um dos melhores gramados que temos visto, podendo mesmo ser comparado aos gramados da capital.
Perguntado sobre os jogadores que observou treinando dias antes, comentou:
— Apenas notei, por parte dos jovens de Atibaia, muito esforço e entusiasmo, mas ressentem-se de mais preparo físico e técnico. É preciso haver quem os ensine a trabalhar com a “redonda”, para que consigam produzir algo de prático.
As palavras de Friedenreich revelam um olhar atento e generoso sobre o futebol local. Mais do que um simples registro esportivo, a entrevista preserva a passagem por Atibaia de um personagem que ajudou a construir os primeiros capítulos da história do futebol brasileiro. E é justamente por meio dessas pequenas notícias, guardadas nas páginas amareladas dos jornais, que a memória da cidade continua viva, conectando acontecimentos locais a personagens que marcaram a história nacional.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.