HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Uma estação de rádio para Atibaia
O rádio havia se transformado em um verdadeiro fenômeno de massas, levando notícias, música, esportes e entretenimento diretamente aos lares e alcançando, inclusive, uma parcela da população que não sabia ler.
Márcio Zago
‘Em 1951, o colunista Ari de Toledo publicou no jornal O Atibaiense um artigo intitulado “Rádio e Imprensa”. Ari mantinha uma coluna semanal dedicada à arte e à cultura em geral, na qual comentava acontecimentos do meio artístico e realizava entrevistas com personalidades de destaque da época, especialmente ligadas à música. Naquele artigo, abordou um tema que, até os anos 1940, era recorrente nos meios de comunicação: o papel do rádio como veículo de informação diante do jornal impresso.
O rádio havia se transformado em um verdadeiro fenômeno de massas, levando notícias, música, esportes e entretenimento diretamente aos lares e alcançando, inclusive, uma parcela da população que não sabia ler. Muitos acreditavam que, em pouco tempo, ele acabaria substituindo os jornais. Os defensores do rádio destacavam sua rapidez. Enquanto o jornal chegava às mãos do leitor apenas no dia seguinte, o rádio transmitia os acontecimentos quase em tempo real. Em situações de guerra, eleições, catástrofes ou grandes eventos esportivos, a voz do locutor parecia superar a lentidão da tinta e do papel. Já os defensores da imprensa escrita argumentavam que a função dos jornais era diferente.
O rádio informava, mas não aprofundava. A notícia ouvida desaparecia rapidamente; a notícia impressa, por sua vez, podia ser relida, analisada, recortada e arquivada. O jornal oferecia detalhes, opiniões, estatísticas e interpretações que dificilmente encontravam espaço na programação radiofônica. Tratava-se, em essência, de uma disputa natural entre dois meios de comunicação: um herdeiro de uma longa tradição impressa e outro ainda em plena expansão tecnológica. A discussão entre rádio e jornal, tão presente nas décadas de 1930 e 1940, antecipava debates que mais tarde se repetiriam com a chegada da televisão e, mais recentemente, da internet. A história demonstrou que os novos meios raramente eliminam os anteriores; em geral, transformam suas funções e os obrigam a se adaptar às novas formas de comunicar e informar.
No entanto, o texto de Ari de Toledo tinha um propósito que ia além da simples reflexão sobre os meios de comunicação. Por trás daquela análise havia uma intenção muito clara: preparar os leitores para uma iniciativa ambiciosa e inédita.
O que Ari de Toledo pretendia era mobilizar a opinião pública em torno de um projeto ousado para a época: a implantaçãoda primeira estação de rádio em Atibaia. O que havia até então eram serviços de retransmissão, como oSAFA – Serviço de Alto-Falante de Atibaia. A intenção era implantar uma emissora. Ari, e as demais pessoas envolvidas no projeto, sabiam das dificuldades dessa empreitada.
A concessão de prefixos vinha de uma convenção internacional e dependia de muita articulação junto aos órgãos estaduais e federais para ser concretizado. Ari tinha amplo apoio do Prefeito Walter Engrácia de Oliveira, que prometia influir junto ao Governador de Estado, Dr. Lucas Nogueira Garcez e do Secretário da Viação, Nilo Amaral. Mesmo em processo inicial, o jornalista não perdeu a oportunidade de publicar nas semanas seguintes pequenos anúncios convocando novos interessados. Com o título “Radio Emissora Atibaia S.A” a nota dizia: “Acha-se à disposição de todos os interessados, na redação deste jornal, uma lista de obrigação, na qual os interessados a subscrever ações da futura emissora, podem assiná-la, com tal fim, declarando com qual importância desejam contribuir. A lista pode ser procurada também com Ari de Toledo. Será fundada a sociedade tão somente após a concessão do prefixo – se o conseguirmos. A concessão que será dada mediante decreto federal”.
A campanha liderada por Ari de Toledo revela o clima de otimismo que havia na época e o valor dado às ações culturais no desenvolvimento do município.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.


