Marcio ZagoNewsVariedades

HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Festa de Bom Jesus dos Perdões

Originalmente escrito para o jornal O Estado de S. Paulo, onde atuou por mais de cinco décadas, o texto vai além da simples descrição das festividades e apresenta uma reflexão sobre os rumos da celebração dedicada ao padroeiro da cidade vizinha.

Márcio Zago

Em 1951, o jornalista Hélio Damante publicou no jornal O Atibaiense um artigo sobre a Festa do Bom Jesus realizada em agosto daquele ano. Originalmente escrito para o jornal O Estado de S. Paulo, onde atuou por mais de cinco décadas, o texto vai além da simples descrição das festividades e apresenta uma reflexão sobre os rumos da celebração dedicada ao padroeiro da cidade vizinha.
Natural de Perdões, Hélio Damante destacou-se como jornalista, professor, pesquisador e folclorista, dedicando-se principalmente ao estudo da cultura caipira, da religiosidade popular e da história paulista. Membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, deixou importante contribuição para a preservação das tradições e da memória cultural do interior paulista. Segundo os dados do IBGE de 1950, Perdões possuía 2.605 habitantes e era então um distrito pertencente ao município de Nazaré Paulista.
Ao lado de Santa Bárbara d’Oeste e Santana de Parnaíba, está entre as poucas cidades paulistas cuja origem está ligada à iniciativa de uma mulher. Em 1703, Bárbara Cardoso de Almeida ergueu em suas terras uma pequena capela dedicada ao Senhor Bom Jesus dos Perdões da Cana Verde, marco que deu origem ao povoado e, posteriormente, à cidade. Realizada tradicionalmente no mês de agosto, a Festa do Bom Jesus sempre ocupou papel central na vida religiosa e social da comunidade.
Em seu artigo, Hélio Damante registrou as transformações que já se faziam sentir naquele período: “Anos atrás, quando parcos eram os meios de comunicação, os romeiros, vindos a cavalo ou em caravanas de carros de boi, eram obrigados a uma longa permanência junto ao santuário, cujos arredores se cobriam de barracas e outras improvisadas habitações, prolongando-se as festas por quatro ou mais dias, todos eles com muita concorrência e igual vulto. Hoje, o automóvel, verdadeiro dominador comum das distâncias, reduziu o tempo da festa unicamente ao dia próprio do Bom Jesus, no espaço de tempo que medeia entre o início da missa solene, tradicionalmente às 11 horas, e o término da procissão com a milagrosa imagem do Senhor Bom Jesus dos Perdões. (…) A rua principal do humilde vilarejo é então transformada em artéria de dinâmica metrópole. Os logradouros enchem-se, o movimento não para, reinando incessante alegria e múltipla atividade em meio à poeira, própria do mês de agosto, que dá tonalidade aos vestuários, às tendas que se armam e aos veículos que passam… Roceiros, boiadeiros, tropeiros, matronas respeitáveis, moças dos sítios, confundem-se com militares, mascates, condutores de veículos e citadinas elegantes.” A observação de Damante revela um momento de transição, em que os avanços nos transportes e nas comunicações começavam a modificar costumes seculares, reduzindo o tempo de permanência dos romeiros sem diminuir a força da devoção popular.
Mais de sete décadas depois, a festa continua sendo realizada anualmente, ampliando sua programação para além do dia 6 de agosto. Mantém vivo seu caráter religioso, reunindo romeiros, grupos folclóricos, manifestações culturais e atividades recreativas que atraem milhares de visitantes. Em 2025, O Atibaiense publicou uma extensa reportagem em comemoração aos 320 anos de Bom Jesus dos Perdões.
Entre os textos apresentados estava o depoimento do juiz de Direito Rogério Correia Dias, outro ilustre perdoense, que recordou a trajetória de seus antepassados e sua ligação afetiva com a cidade. O testemunho reforça aquilo que Hélio Damante já percebia em 1951: mais do que uma celebração religiosa, a Festa do Bom Jesus é um elo entre passado e presente, preservando a memória coletiva e a identidade cultural de uma comunidade que se formou em torno da fé e da devoção ao seu padroeiro.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.