Mulheres na política: porque ainda são poucas nos cargos eletivos?
Diante desse cenário, é necessário reconhecer que as cotas de candidatura, embora tenham sido um passo importante, mostraram-se insuficientes para corrigir a desigualdade de gênero na política brasileira. Cabe à sociedade e, sobretudo, aos partidos políticos, transformar esse diagnóstico em ação concreta.
Foto ilustrativa Internet
As eleições de outubro novamente levantam um debate que surge a cada dois anos: a presença das mulheres em cargos eletivos, especialmente no Legislativo. Nas eleições municipais o principal foco é nas candidaturas a vereadora. Neste ano de 2026, passa a ser a cadeira de deputada estadual, de federal e senadora. Os números mais recentes sobre a presença feminina no Congresso brasileiro trazem uma contradição que merece atenção.
Nas últimas décadas, a quantidade de mulheres que se candidatam a cargos no Legislativo multiplicou-se de forma expressiva. Contudo, esse salto nas candidaturas não se traduziu num avanço equivalente nas urnas: a proporção de mulheres efetivamente eleitas cresceu num ritmo muito mais lento do que a de candidatas.
Dados do Portal da Classe Política, lançado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostram que o número de mulheres que disputam vagas para a Câmara dos Deputados cresceu quase dez vezes entre 1998 e 2022, mas não houve avanço proporcional na ocupação de cadeiras no Legislativo. O total de candidatas à Câmara saltou de 358, em 1998, para 3.668, em 2022, um aumento de aproximadamente 925%. No mesmo período, o número de deputadas federais eleitas passou de 29 para 90, alta de 210%.
Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 17,8% das vagas nas assembleias estaduais, os maiores percentuais da série histórica analisada, mas ainda abaixo de um quinto da representação parlamentar total.Nas assembleias legislativas estaduais, há cerca de 18% de representação de mulheres.
Em Atibaia, a atual Câmara Municipal não tem nenhuma vereadora eleita exercendo mandato. São 11 cadeiras e 11 homens, apesar do eleitorado do município ter cerca de 52% de mulheres.
Esse descompasso não é acidental, e tampouco pode ser atribuído a uma suposta falta de interesse das mulheres pela vida pública. Pesquisas recentesapontam para um problema estrutural: o funcionamento interno dos próprios partidos políticos. Enquanto a legislação obriga a existência de candidaturas femininas, nada garante que essas candidaturas recebam recursos, espaço e apoio compatíveis com sua viabilidade eleitoral.
Há uma prática que merece ser nomeada sem rodeios: o uso de candidaturas femininas meramente formais, registradas apenas para que os partidos cumpram a cota mínima exigida por lei, sem qualquer intenção real de viabilizar essas candidatas. Esse tipo de manobra cumpre a letra da legislação, mas esvazia seu propósito, perpetuando a sub-representação feminina sob a aparência de conformidade legal.
Diante desse cenário, é necessário reconhecer que as cotas de candidatura, embora tenham sido um passo importante, mostraram-se insuficientes para corrigir a desigualdade de gênero na política brasileira. Cabe à sociedade e, sobretudo, aos partidos políticos, transformar esse diagnóstico em ação concreta.


