HISTÓRIAS DE ATIBAIA – cidade teve sua “Casa de Cultura” nos anos 1940

Durante o período do Estado Novo, tornou-se comum a criação de espaços culturais mantidos por associações, grupos de intelectuais e iniciativas locais denominados, geralmente, de “casas de cultura”.

Márcio Zago

Antes da Casa da Cultura que conhecemos hoje (nomeada Jandyra Massoni) existiu, no final dos anos 1940, em Atibaia, outro espaço de denominação quase homônima: não exatamente uma “Casa da Cultura”, mas uma “Casa de Cultura”. A diferença, embora sutil, reflete um contexto histórico específico. Durante o período do Estado Novo, tornou-se comum a criação de espaços culturais mantidos por associações, grupos de intelectuais e iniciativas locais denominados, geralmente, de “casas de cultura”. No caso de Atibaia, esse núcleo esteve vinculado a ABDE – Associação Brasileira de Escritores, entidade fundada em 1942 com o propósito de defender os interesses dos escritores, promover a cultura e, sobretudo, atuar em favor da liberdade de expressão em um período marcado pela censura do regime de Getúlio Vargas. Entre seus fundadores destacam-se Sérgio Milliet, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre outros. Anos depois se organizou em Atibaia um núcleo local da ABDE, sob a coordenação de André Carneiro e César Mêmolo Júnior, ação que contribuiu para a criação da Casa de Cultura de Atibaia.
Diferentemente de instituições tradicionais, em Atibaia a Casa de Cultura não possuía sede própria: suas atividades eram realizadas em diversos espaços da cidade, contando, no entanto, com apoio e recursos da ABDE, um privilégio conquistado graças ao intenso trabalho literário desenvolvido pelos jovens ativistas culturais liderados por André Carneiro. Foram esses jovens que obtiveram, durante o II Congresso Paulista de Escritores, o convênio que viabilizou a criação da Casa de Cultura de Atibaia.
Sua inauguração oficial ocorreu em agosto de 1948, em cerimônia realizada no Ginásio Atibaiense, atual Escola Estadual Major Juvenal Alvim. Semanas depois, a primeira reunião formal foi realizada na sede do jornal O Atibaiense, quando se oficializou a diretoria da entidade: Oswaldo Barreto assumiu a presidência, tendo Geraldo H. de Souza como vice-presidente. Integravam ainda o grupo de colaboradoresCésar Mêmolo Júnior, André e Dulce Carneiro, Alfredo Sant’Anna, João Batista Conti, Donozor Lino, entre outros.
O evento de estreia ocorreu no Clube Recreativo Atibaiano, com uma palestra de Sérgio Milliet sobre “Os tetrarcas de 22”, tema que remetia diretamente ao legado da Semana de Arte Moderna de 1922 e à formação do modernismo no Brasil. O jornal O Atibaiense, que então servia de suporte ao movimento literário em formação na cidade, deu amplo destaque ao acontecimento, registrando em tom elogioso a presença do conferencista: “Sérgio Milliet é considerado, talvez, a maior figura da crítica na literatura nacional. Poeta, tradutor, romancista, ensaísta, jornalista, professor de sociologia, crítico de artes plásticas, pintor, etc., não desconhece os mistérios da criação artística e as armadilhas que o labor intelectual apresenta a todos os que a ele se dedicam. (…) Líder das novas gerações, Sérgio Milliet é o legítimo sucessor de Mário de Andrade e um dos pouquíssimos que se fizeram respeitar pela profunda honestidade crítica, elevada a um verdadeiro sacerdócio, exercendo a mais salutar influência na cultura brasileira. É natural, portanto, que a Casa de Cultura de Atibaia e este suplemento se sintam honrados com a sua presença, esperando que sua conferência produza os melhores frutos no meio intelectual atibaiano.” Ainda que sem sede fixa , a existência da Casa de Cultura de Atibaia deixa evidente a vitalidade que houve um dia na cultura local graças a um grupo de jovens artistas comprometidos com a difusão da literatura, com a formação de público e com a afirmação da cultura como espaço de reflexão e liberdade. Um legado, infelizmente, pouco conhecido e valorizado em tempos de apreço a futilidade.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.