HISTÓRIAS DE ATIBAIA: Monteiro Lobato morre e O Atibaiense dedica página inteira ao escritor

Obras ousadas do escritor como O Homem Amarelo e A Boba romperam com o academicismo vigente e abriram caminho para as transformações estéticas que culminariam na Semana de Arte Moderna de 1922.

Márcio Zago

Em 1948 morria Monteiro Lobato. O suplemento literário Letras e Artes, integrado ao jornal O Atibaiense, dedicou uma página inteira ao acontecimento. Mantido por André Carneiro e César Mêmolo Junior, o suplemento realizou uma homenagem honesta e sensível ao escritor, apesar das profundas diferenças ideológicas que separavam os jovens ativistas locais do já consagrado autor brasileiro.
Naquele momento, o Letras e Artes consolidava-se como um dos importantes veículos do interior paulista na difusão do movimento pós-modernista conhecido como Geração de 45, enquanto Monteiro Lobato se despedia como uma das figuras mais complexas do cenário cultural nacional. Crítico da arte moderna, Lobato publicara, em 1917, o artigo “Paranoia ou mistificação?”, no qual atacava duramente a produção de Anita Malfatti, provocando forte reação de artistas como Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Anita, por sua vez, foi a grande precursora do modernismo no Brasil ao introduzir as vanguardas europeias em sua exposição de 1917.
Obras ousadas como O Homem Amarelo e A Boba romperam com o academicismo vigente e abriram caminho para as transformações estéticas que culminariam na Semana de Arte Moderna de 1922. Além das divergências estéticas, havia também as questões políticas. Lobato passou a ser acusado de racismo pelo tratamento dado à personagem Tia Anastácia, no clássico infantil O Sítio do Picapau Amarelo, mas principalmente pelo livro O Presidente Negro, uma ficção científica distópica que descreve um futuro em que os Estados Unidos elegem um presidente negro, mas que aborda temas ligados à eugenia, imaginando um processo de “alteração” da população negra para eliminar características físicas africanas.
Esses elementos colocavam o escritor em choque com as visões progressistas que orientavam boa parte da intelectualidade do pós-guerra. Apesar do abismo ideológico entre Lobato e os modernistas, havia também convergências. Ambos buscavam a realidade brasileira como tema e razão de suas obras. No modernismo, a ruptura com o academicismo pretendia retratar o cotidiano nacional, a língua falada do povo e suas contradições. Algo semelhante ocorria na obra de Monteiro Lobato, especialmente em Urupês e na criação do personagem Jeca Tatu, figura emblemática do caipira paulista e instrumento crítico para discutir o atraso social e sanitário do país.
Para César Mêmolo Junior, que também assinou uma extensa matéria sobre a morte do escritor no Letras e Artes, talvez houvesse outra razão para sua tristeza naquele momento. Seu personagem “Zé Tibaia”, que aparecia semanalmente no Atibaiense, trazia forte influência do próprio Jeca Tatu, um estereótipo do homem do interior paulista, mas com uma diferença essencial: enquanto o Jeca de Lobato representava o caboclo apático e resignado, o Zé Tibaia surgia como figura crítica, irônica e bem-humorada, capaz de comentar a realidade local com inteligência e sarcasmo.
Mas foi André Carneiro quem melhor definiu a relação ambígua de amor e conflito entre os jovens ativistas de Atibaia e o grande escritor recém-falecido. Reafirmando suas discordâncias, André Carneiro escreveu o artigo “Lobato, o imperfeito”, no qual reconhecia a influência decisiva da obra de Lobato em sua formação, sobretudo enquanto criança, quando lia O Sítio do Picapau Amarelo. Escreveu ele: “Monteiro Lobato morreu. Diante do que representou em minha vida a sua obra, como soa ridículo o título desse artigo. Mas que a irreverência da palavra marque justamente o sentido insignificante das minhas discordâncias, que ela represente minha homenagem comovida ao escritor que mais não poderia admirar se o considerasse perfeito, porque nenhum homem, mesmo perfeito, eu conseguiria admirar mais.”Entre críticas e contradições, a página dedicada a Monteiro Lobato pelo Letras e Artes revela mais do que uma simples despedida. Ela expõe a grande admiração e respeito dos jovens artistas locais pelo criador da literatura infantil no Brasil. Assim, mesmo entre tensões e discordâncias, Lobato permanecia como presença incontornável na formação cultural de uma geração que, ao homenageá-lo, também refletia sobre os próprios rumos da arte e do pensamento brasileiro.

 

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.