HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Ensino e cultura em Atibaia nos anos quarenta
O momento descrito configurava-se, sem dúvida, como um dos períodos de maior efervescência cultural e intelectual já experimentado pelo município.
Márcio Zago
Em agosto de 1948, o jornal O Atibaiense transcreveu uma matéria originalmente publicada na Folha da Manhã, na qual se exaltavam os avanços intelectuais vivenciados por Atibaia naquele período. Assinado pelo professor Silveira Bueno, o artigo registrava sua surpresa ao retornar à cidade após um longo tempo de ausência de sua quase terra natal (ele era natural de Jarinu, mas mudou-se para Atibaia ainda na infância).
O momento descrito configurava-se, sem dúvida, como um dos períodos de maior efervescência cultural e intelectual já experimentado pelo município. A cidade colhia, então, os frutos das administrações dos prefeitos sanitaristas Walter Engrácia de Oliveira e João Batista Conti, responsáveis por imprimir novos ares de modernidade ao espaço urbano. Recentemente elevada à condição de estância climática, Atibaia vivia seu apogeu desenvolvimentista, impulsionada pelo otimismo do pós-guerra e por um intenso dinamismo social e cultural. Em seu texto, Silveira Bueno escreveu: “Ausente por vários anos de Atibaia, cujos céus sempre bonançosos jamais se apagaram na visão do meu passado, pude verificar, com transbordamento de alegria, como evoluiu e progrediu a terra de outrora. Sem falar de sua transformação meramente material, das suas vilas, dos seus hotéis, da sua vida, enfim, de núcleo social, historicamente dos mais antigos do Estado, bastou-me apreciar a parte da inteligência, dos anseios da cultura. Há um radiante e fremente inquietar-se por tudo o que seja do espírito e do coração. Batem-se os moços por compreender, por cooperar com todas as manifestações do saber e da estética. Os problemas culturais aí se refletem e, como sinal certo da vida, surgem os embates, as polêmicas, os ajustes em prol ou contra esta ou aquela teoria. Traduzem os jornais esta inquietação, com tiragens bem raras na imprensa do interior; ouvem-se os intelectuais que aí vão colaborar com os jovens; discutem-se ideias, e a este orador se contrapõe aquele, para que ambos os campos tomem parte na batalha do espírito.”Silveira Bueno referia-se, sobretudo, aos jovens ativistas culturais liderados por André Carneiro, que, por meio de iniciativas artísticas inovadoras e ousadas, inseriam Atibaia no seleto circuito de artistas e intelectuais paulistas. Esse movimento encontrava no jornal O Atibaiense um espaço privilegiado de difusão, tornando-o, naquele momento, o principal abrigo da vanguarda literária local.
Entretanto, o fato que mais impressionou Silveira Bueno foi a construção do Ginásio Atibaiense (atual Escola Estadual Major Juvenal Alvim), obra do empresário César Mêmolo, também proprietário do Hotel Estância Lynce. Entusiasta histórico do ensino e do saber, o professor havia reivindicado, anos antes, a ampliação da rede educacional da cidade em artigo publicado no próprio O Atibaiense, intitulado “Um Ginásio para Atibaia”. Ao visitar a nova instituição, Silveira Bueno encantou-se com a arquitetura do edifício, a qualidade de suas instalações e a presença de equipamentos didáticos considerados avançados para a época, mas, sobretudo, com o nível de seu corpo docente.
O Ginásio Atibaiense tornou-se uma referência educacional e reforçou, por determinado período, a ideia de que Atibaia se destacava pelo compromisso com a educação, uma vocação que remontava ao início do século XX, quando o município foi pioneiro no país ao instituir o ensino primário obrigatório. Encerrando seu artigo sobre a visita ao ginásio, Silveira Bueno escreveu que o poeta Amadeu Amaral, se vivo fosse, já poderia abolir a palavra “quase” de sua célebre definição: “Atibaia — o paraíso quase possível na Terra.”
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.



