A violência contra meninas e mulheres em efeito dominó
Entre quatro paredes o padrão que aperta o gatilho: a corda arrebentando do lado mais fraco.

De tempos em tempos, um caso bárbaro nos paralisa. A manchete muitas vezes carrega um verniz mentiroso: “crime passional”, “surto”, “descontrole emocional”. Mas esses estão longe de ser casos isolados, uma vez que representam um padrão sistêmico de opressão.
Não se trata de um homem excepcionalmente cruel, de uma mente fora do normal. Trata-se de uma lógica que se repete com variações previsíveis: ruptura afetiva, sentimento de posse ferido, decisão de punição sádica. A dificuldade de lidar com a rejeição é embrionária pelo patriarcado e não é exclusividade de um ou outro sujeito inseguro.
A violência extrema, nesses casos, não é explosão aleatória, mas é uma mensagem.Quando um homem mata os filhos para atingir a mãe, ele não está apenas reagindo a uma frustração. Ele está operando dentro de uma cultura que ensinou que a mulher é propriedade relacional, que os filhos são extensão do poder masculino e que a honra ferida justifica devastação.
A traição, real ou suposta, torna-se gatilho porque revela algo mais profundo: a dificuldade de lidar com a rejeição feminina. A ideia de que a mulher pode escolher, romper, desejar fora da expectativa masculina, ainda é percebida por muitos como afronta. E, em sociedades estruturadas pela desigualdade de gênero, afronta se responde com sadismo e crueldade.
É preciso dizer com todas as letras: esses crimes não nascem do amor, mas sim da posse e do autocentramento mais egóico e doentio que pode haver.
A repetição sistemática desses casos revela que ainda socializamos meninos e homens para associar masculinidade a domínio.
E a cada novo caso, o discurso público tenta reduzir o problema ao indivíduo. “Ele enlouqueceu.” “Ele perdeu a cabeça.” “Ele não suportou.” Mas milhões de pessoas (homens e mulheres) enfrentam frustrações, traições, separações sem apertar gatilhos.
O que diferencia não é a intensidade da dor, mas a autorização social que minimiza os casos, despreza o sofrimento das vítimas e legitima a conversão da dor em destruição.
Há também o terror simbólico. Cada vez que um caso assim ganha repercussão, mulheres como eu internalizam que sair pode ser perigoso; romper pode custar caro; a decisão de ir embora pode desencadear violência contra si ou contra aqueles a quem se ama. O mais lamentável é que muitas de nós acreditam que se fizermos tudo conforme a cartilha da misoginia prevê, estaremos à salvo. Essa é outra falácia violenta, porque enquanto uma única mulher sofre com o vaso se estilhaçando na parede, o soco da mesa ou o soco no ventre, nenhuma de nós está livre.
Enquanto tratarmos esses episódios como exceções trágicas, deixamos intacta a base que os sustenta: desigualdade de gênero, naturalização da posse, fragilidade das redes de proteção, falhas no monitoramento de ameaças prévias.
Interromper essa avalanche sangrenta exige uma educação doméstica e institucional que pense masculinidades não violentas; políticas de prevenção; acompanhamento judicial de homens com histórico de violência; fortalecimento das medidas protetivas; escuta séria e humana das mulheres quando denunciam riscos.
Exige também responsabilidade narrativa, midiática e discursiva. Já está na hora de parar de romantizar o “crime passional”. Não há paixão em matar filhos para ferir a mãe. Há cálculo de impacto máximo.
Esses casos nos chocam porque parecem inumanos, mas o que deveria nos chocar ainda mais é o quanto eles são previsíveis, o quanto se repetem nas manchetes, lares e becos. Repetem-se na mentalidade dos meninos que não aprendem a respeitar um não e seguir em frente, na direção de um tecido social menos anestesiado diante da barbárie.


