HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Dulce Carneiro e o santo de casa

Dulce destacava a ausência dos grandes músicos nacionais nas programações das rádios, como Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Lourenzo Fernandes, Henrique Oswald,

Márcio Zago

Em maio de 1948, o jornal O Atibaiense passou a publicar o suplemento literário Letras e Artes, editado por André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro e César Mêmolo Jr. Integrado ao corpo do jornal, o suplemento conquistou desde o início uma página inteira dedicada exclusivamente às matérias sobre cultura. Alguns meses depois, Letras e Artes alcançou maior autonomia ao se desdobrar no tabloide Tentativa, revelando-se o melhor suplemento literário brasileiro de seu tempo, segundo a opinião de alguns dos mais importantes escritores e intelectuais da época. Neste primeiro número, Dulce Carneiro, então uma jovem artista em início de carreira, escreveu o artigo “Villa-Lobos – Santo de Casa”, no qual questionava, já naquela época, a influência dos meios de comunicação na formação cultural do brasileiro. Vale lembrar que a televisão ainda não havia sido inventada e o rádio ganhava popularidade como o grande veículo de comunicação de massa.
Dulce destacava a ausência dos grandes músicos nacionais nas programações das rádios, como Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Lourenzo Fernandes, Henrique Oswald, Francisco Braga, Alberto Nepomuceno, Cláudio Santoro, Radamés Gnattali, Guerra Peixe, Brasílio Itiberê e até mesmo Villa-Lobos, que naquela época desfrutava de enorme prestígio fora do país: “A quantidade de artistas nacionais cuja projeção ultrapassou as fronteiras do Brasil, estendendo-se pelo resto do mundo, não é grande. Villa-Lobos, junto com Portinari, são os principais. Como é possível que algum brasileiro de medianos conhecimentos possa ignorar e deixar de se orgulhar com o que representa no cenário musical do mundo, aquele patrício que tanto honra o Brasil?” Dulce apontava ainda uma dificuldade adicional para quem morava nas cidades do interior: a falta de acesso à cultura: “O rádio, esse servo da mediocridade, apoia, salvo excepcionalíssimos casos, essa inacreditável situação. À mercê dela tem de se sujeitar o amante da música residente no interior, que não possui vitrola nem discoteca dignas desse nome. Não podendo contar frequentemente com concertos e audições de discos que, embora em pequena quantidade, são oferecidos nas capitais, depende do rádio para ouvir a nossa música. Incentivando o público a permanecer em todos os seus erros, o rádio — único meio pelo qual talvez se pudesse sanar essa situação — é justamente o que mais contribui para que os nossos grandes compositores continuem quase completamente desconhecidos.”
Ao trazer essa reflexão às páginas de O Atibaiense, Dulce Carneiro demonstrava não apenas sensibilidade artística, mas também uma consciência crítica rara para alguém tão jovem. Seu texto revelava um olhar atento às engrenagens da formação cultural brasileira e à responsabilidade dos meios de comunicação na construção, ou no empobrecimento, do gosto musical do público. O artigo expunha, com lucidez e firmeza, o paradoxo de um país que consagrava seus artistas no exterior enquanto os relegava ao esquecimento dentro de suas próprias fronteiras.
Mais do que uma defesa apaixonada da música erudita nacional, o texto afirmava a urgência de reconhecer e valorizar a produção cultural brasileira como parte fundamental da identidade do país. Passadas décadas, as observações de Dulce Carneiro permanecem surpreendentemente atuais. Se os meios mudaram, o debate sobre acesso, difusão e reconhecimento da cultura nacional continua aberto, e seu texto segue como um testemunho precoce e vigoroso dessa luta por visibilidade e pertencimento cultural, fato que se aplica à própria autora. Dulce Carneiro foi, sem dúvida, uma das grandes artistas femininas de Atibaia, talvez a maior de todos os tempos, e permanece, ainda hoje, uma das menos conhecidas.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.