O que fazemos com a raiva das crianças?

Não existem emoções feias ou bonitas, mas sim o que fazemos com elas.

Anna Luiza Calixto

A raiva das crianças nos assusta.
Talvez porque ela seja barulhenta, desorganizada, imprevisível. Talvez porque nos lembre de algo que aprendemos cedo a esconder. O fato é que, diante da raiva infantil, a resposta adulta costuma ser rápida e quase automática: silenciar, punir, corrigir. Como se a emoção fosse o problema e não a falta de espaço para ela existir.
Desde cedo, ensinamos às crianças quais sentimentos são aceitáveis. Alegria cabe. Tristeza, com moderação. Raiva, não. A raiva é tratada como falha de caráter, falta de educação ou desafio à autoridade. E assim, pouco a pouco, a infância vai aprendendo que sentir só é permitido desde que seja bonito.
Quando uma criança sente raiva, algo está sendo comunicado. Um limite foi atravessado, uma frustração não elaborada, uma injustiça percebida, uma necessidade não atendida. Ignorar essa comunicação não elimina o sentimento, apenas o empurra para lugares menos visíveis e mais perigosos.
O problema não é a raiva.O problema é o que fazemos com ela.
Quando punimos uma criança por sentir raiva, ensinamos que suas emoções são inadequadas. Quando a mandamos “se acalmar” sem escuta, ensinamos que o desconforto deve ser resolvido em silêncio. Quando exigimos controle emocional de quem ainda está aprendendo a nomear o que sente, estamos cobrando maturidade sem oferecer ferramenta.
Isso não é educação emocional.Édoutrinação.
E, mais uma vez, essa lógica não recai igualmente sobre todas as crianças. Meninos têm mais permissão para expressar raiva, ainda que de forma violenta, enquanto meninas aprendem cedo que raiva é feia, indesejável, inadequada. Para elas, a emoção precisa ser engolida, suavizada, transformada em culpa. O resultado aparece mais tarde: mulheres que não sabem reconhecer seus próprios limites, que pedem desculpas por se indignar, que adoecem em silêncio.
Toda criança precisa aprender que pode sentir raiva, mas não pode machucar. Que pode se frustrar, mas não pode ferir. Esse aprendizado não acontece por punição, mas por presença adulta. Por alguém que nomeia, sustenta e organiza o caos emocional até que a criança possa fazê-lo sozinha.
A escola e a família têm papel central nesse processo. Ambientes que expulsam crianças por expressarem emoções difíceis não educam: excluem. Crianças que não encontram espaço para sentir acabam aprendendo a se adaptar e adaptação forçada não é saúde emocional.
Quando uma criança aprende que sua raiva pode ser escutada, ela aprende também a escutar. Aprende a reconhecer limites, a negociar conflitos, a respeitar o outro sem anular a si mesma. Aprende que sentir não é errado: errado é não saber o que fazer com o que se sente.
Talvez a pergunta não seja apenas o que fazemos com a raiva das crianças.Talvez seja o que fizemos com a nossa.
A infância nos oferece uma chance de fazer diferente.