HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Associação Cultural Castro Alves e a poesia local (parte 1)

A intensa produção artística desenvolvida por jovens escritores locais como o próprio André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro, César Mêmolo Junior e Donozor Lino, entre outros, projetou Atibaia como uma cidade conhecida e respeitada no meio cultural paulista.

 

 

Márcio Zago

Em Atibaia, o teatro pode ser considerado o mais representativo segmento cultural do início do século XX, fato que, para muitos, ainda soa como uma agradável surpresa. Mais surpreendente, porém, é perceber que, cerca de quarenta anos depois, a literatura assumiria esse protagonismo.
Se, em um primeiro momento, o Teatrinho do Mercado impulsionava o desenvolvimento das artes cênicas no município, foi no final da década de 1940 que um grupo de ativistas culturais, liderado por André Carneiro e favorecido por um conjunto particular de circunstâncias sociais e políticas, contribuiu para consolidar na cidade o sentimento de “cidade da poesia”. Havia, naquele momento, uma clara intenção de promover o turismo cultural antes mesmo da consolidação do próprio termo. Convém lembrar que foi a partir da década de 1970 que o turismo cultural passou a se estruturar de maneira mais consistente, impulsionado pela ampliação do conceito de cultura e pelo reconhecimento do papel do patrimônio na sociedade, especialmente após a Convenção do Patrimônio Mundial da UNESCO de 1972.
A intensa produção artística desenvolvida por jovens escritores locais como o próprio André Carneiro, sua irmã Dulce Carneiro, César Mêmolo Junior e Donozor Lino, entre outros, projetou Atibaia como uma cidade conhecida e respeitada no meio cultural paulista. Entre as ações desenvolvidas pelo grupo, destacava-se o intercâmbio entre a cidade e os movimentos literários mais representativos do país, iniciativa que se intensificou após a participação de André Carneiro no 1º Congresso Paulista de Poesia.
A partir de então, escritores como Sérgio Milliet, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia passaram a transitar com maior frequência e familiaridade pelo município. Paralelamente, havia, por parte de empresários como César Mêmolo, a intenção de atrair para o setor hoteleiro personalidades de destaque no meio social, incluindo o artístico e cultural. Nesse contexto, o desenvolvimento da educação e da cultura configurava-se como um dos principais eixos estratégicos para o crescimento turístico de Atibaia.
A inauguração do Ginásio Atibaiense, em 1948, pode ser considerada um marco decisivo para a consolidação desse projeto. Sua qualidade, tanto em termos de infraestrutura quanto, principalmente, de seu corpo docente, fez da instituição uma das mais importantes da região. Mais do que um espaço de ensino, o Ginásio tornou-se um verdadeiro polo cultural, abrigando inúmeras iniciativas em uma época em que a cidade ainda não dispunha de nenhum equipamento cultural específico. O Museu Municipal João Batista Conti, por exemplo, só seria inaugurado alguns anos mais tarde.
Desse ambiente fértil emergiram iniciativas que deixariam marcas duradouras na história cultural do município, como a criação da Biblioteca Pública Municipal, o jornal literário Tentativa, as ações da Casa de Cultura e, sobretudo, a criação da Associação Cultural Castro Alves, uma ousada empreitada voltada à difusão da literatura, uma iniciativa pouco conhecida no município, inclusive entre seus próprios agentes culturais. A criação da Associação Cultural Castro Alves, assim como a tentativa de edificação do que chamaram de”Casa do Poeta”, pode soar, aos olhos contemporâneos, como um gesto quase utópico, um devaneio que já não encontraria lugar no mundo atual. No entanto, é justamente nessa dimensão utópica que reside sua força: ela revela não apenas o que foi Atibaia naquele período, mas também a intensidade do desejo de seus protagonistas em transformar a cidade por meio da arte e da palavra. São sobre essa experiência, seus ideais, suas realizações e seus limites, que trataremos no próximo artigo.