HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O Recital de Poesia de 1948

Entre os escritores estavam  Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, Domingos Carvalho da Silva, Rossine Camargo Guarnieri, Jamil Almansur Haddad e Cyro Pimentel, além do artista plástico Aldemir Martins. 

Márcio Zago

Em agosto de 1948, o recém-inaugurado Ginásio Atibaiense (atual E.E. Major Juvenal Alvim) recebeu, em seu salão nobre, alguns dos mais importantes poetas e escritores do período. Entre eles estavam Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, Domingos Carvalho da Silva, Rossine Camargo Guarnieri, Jamil Almansur Haddad e Cyro Pimentel, além do artista plástico Aldemir Martins.
Os ilustres visitantes integravam o Clube de Poesia e vieram a Atibaia graças ao empenho do núcleo local da Associação Brasileira de Escritores, sob a coordenação de André Carneiro e César Mêmolo Júnior, com o apoio do Ginásio Atibaiense e do jornal O Atibaiense.
Tratou-se de uma caravana intelectual inédita na cidade, que teve ampla repercussão no meio artístico paulista, marcando de forma significativa a vida cultural atibaiana. Fundado naquele mesmo ano, o Clube de Poesia de São Paulo surgiu após o I Congresso Brasileiro de Poesia com o objetivo de fomentar a produção, o estudo e a divulgação da poesia, com forte inclinação para a valorização formal da chamada Geração de 45. A programação incluiu um almoço no Hotel Estância Lynce, uma visita à cidade e, à tarde, no salão nobre do Ginásio Atibaiense, o Recital de Poesia propriamente dito.
O evento contou ainda com uma conferência de Jamil Almansur Haddad sobre a evolução da poesia, partindo do simbolismo até os tempos então atuais, em 1948. No encontro, que alternava a leitura de poemas pelos próprios autores, debates e comentários, Oswald de Andrade pediu que Dulce Carneiro lesse um poema publicado naquele mesmo dia no jornal O Atibaiense. Tratava-se de “Intermezzo”, de autoria da jovem poeta atibaiana, que chamava a atenção de Oswald pela qualidade e pela inovação de sua linguagem.
A visita da caravana repercutiu nos meios intelectuais paulistas, sendo noticiada em jornais e revistas da época. Foi a primeira excursão do Clube de Poesia a uma cidade do interior e tinha, além de suas preocupações estéticas, o propósito de estabelecer um diálogo com centros culturais fora da capital. Esse objetivo encontrou amplo apoio no grupo de ativistas culturais de Atibaia, liderado por André Carneiro, e passou a orientar diversas ações naquele período. Além da presença individual de artistas que vinham conhecer a cidade e suas manifestações, o grupo organizava excursões, encontros e eventos com a intenção de “atualizar” e inserir Atibaia no contexto cultural paulista. Esse movimento pode ser visto como uma das sementes do que hoje chamamos de turismo cultural, proposta que se fortaleceria com o desenvolvimento de políticas públicas, como a criação do IPHAN, responsável por instituir diretrizes de preservação do patrimônio histórico e artístico nacional.
A visão progressista de desenvolvimento sonhada para Atibaia por esses ativistas teve seu ápice nos anos 1970, quando André Carneiro atuou, por curto período, como Diretor de Cultura e Turismo do município, durante a gestão do prefeito Olavo Amorim Silveira. Apesar dos avanços alcançados, perceptíveis, por exemplo, no crescimento do setor hoteleiro e da economia local, o projeto não se consolidou. Os períodos políticos posteriores, marcados por um ideário conservador, não foram capazes de preservar e estruturar a memória, o patrimônio e as manifestações culturais da cidade.
O desmonte de edificações, a descaracterização urbana e o apagamento simbólico de sua história tornaram-se, com raras exceções, a opção da elite econômica e social que sucedeu aquele momento. Ainda assim, iniciativas como o Recital de Poesia de 1948 permanecem como testemunho de um tempo em que Atibaia buscou, conscientemente, construir seu lugar no mapa cultural paulista, apostando na arte, na memória e no diálogo com o país que se reinventava no pós-guerra.