Quem tem boca vai a luta – Crianças que cuidam: outra face da adultização
O recorte de gênero que sobrecarrega meninas na função do cuidado precoce.

Anna Luiza Calixto
Quando discutimos a adultização precoce, é muito comum que o debate orbite em torno de uma de suas lógicas mais perversas, a sexualização. Ainda que essa pauta seja absolutamente urgente, muitas discussões tendem a ofuscar o olhar para outras realidades e contextos, como a função do cuidar.
Para bom início de conversa, cabe convencionar que a trajetória da criança deve ser conduzida com serenidade suficiente para que não seja necessário alocá-la na função de cuidar. Cuidar da casa, dos irmãos, dos adultos, da atmosfera emocional do ambiente. São crianças atentas e responsáveis as que se acostumam a ouvir o quanto são maduras para a idade como um elogio. E é justamente aí que se aloja o problema, pois esse aspecto da adultização comumente é interpretado como virtude.
Elogiada como maturidade, lida como força, romantizada como resiliência. Mas o que ela revela, quase sempre, é a ausência de proteção. Quando uma criança cuida demais, alguém deixou de cuidar dela. Todo excesso esconde uma falta.
Esse fenômeno tem gênero, classe e raça. Recai com mais força sobre meninas,sobretudo pobres e negras, uma vez que o cuidado também é atravessado por um direcionamento histórico às mulheres. O que nossa sociedade faz com mulheres adultas é esboçado na infância.
Enquanto meninos são autorizados ao erro, à bagunça e à distração, meninas são convocadas à vigilância. São ensinadas a serem úteis, prestativas, disponíveis. A infância delas vai sendo encurtada em nome de uma suposta competência emocional que ninguém deveria exigir de uma criança e de falsos pressupostos de que nós, mulheres, amadurecemos mais rapido. Ou somos forçadas a isso?
Esse processo tem consequências profundas. A culpa constante pelo descanso ou falta de produtividade, a sensação de que precisamoa dar conta de tudo, mesmo que já tenhamos cruzado todas as fronteiras do aceitável. Estaria o nosso valor associado ao que fazemos pelo outro? Maternamos a humanidade?
Do ponto de vista das políticas públicas, a adultificação precoce é um sintoma de falhas estruturais. Onde faltam creches, escolas em tempo integral, renda, acesso a serviços e redes de proteção, crianças assumem funções que não lhes cabem. O cuidado infantil não pode ser resolvido à custa da infância de outras crianças.
Onde há uma menina exarada pelo cuidado com o outro, há uma omissão do Estado em cuidar dela e zelar pela vivência de uma infância plena e livre de violações de direitos.
A ruptura com essa hereditariedade viciosa exigebinvestimento em políticas de cuidado, valorização do trabalho reprodutivo, apoio às famílias e formação de profissionais capazes de identificar sinais de sobrecarga infantil. Exige, sobretudo, que paremos de elogiar aquilo que deveria nos preocupar.
Criança responsável demais não é exemplo, é alerta.Proteger a infância das meninas passa por devolver a elas o direito ao erro, à brincadeira, à leveza. Passa por ensinar que cuidar é importante, mas não pode ser obrigação precoce, muito menos um destino imposto (cujo nome passa a ser fardo ou, ainda, sentença).
Eduquemos crianças livres e seguras, confiantes de que serão cuidadas sem que isso implique numa dívida convertida no cuidado com o outro. O cuidar deve estar associado à expressão afetiva de um vínculo, não à imposição radical de um dever. Quem ama, cuida? Sim. Mas também zela para que a criança possa crescer sendo cuidada.
Recomendação cultural: curta-metragem de animação cearense premiado e disponível gratuitamente no YouTube, “Vida Maria”.


