HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O cartunista Belmonte, a gata Cinza e Atibaia
O sucesso do personagem residia na precisão com que encarnava o brasileiro comum dos anos 1940: um trabalhador honesto, pagador de impostos, perplexo e irritado diante do custo de vida, da burocracia, da corrupção política e da exploração cotidiana do povo.
Márcio Zago
Belmonte, ou Benedito Bastos Barreto, sempre terá seu lugar como um dos grandes humoristas gráficos paulista. Sua criação mais célebre, o personagem Juca Pato, alcançou todas as glórias possíveis a uma figura fictícia. Segundo o pesquisador Herman Lima, Juca Pato virou “letreiro a gás neon do Bar e Café Juca Pato, um cavalo de corridas Juca Pato, e mais o sabonete do hotel, o aperitivo do bar, a graxa de sapato, o maxixe Coitado do Juca Pato e até um tango argentino Juca Pato; porque quase tudo em São Paulo, em certa época, trazia o nome de Juca Pato”.
O sucesso do personagem residia na precisão com que encarnava o brasileiro comum dos anos 1940: um trabalhador honesto, pagador de impostos, perplexo e irritado diante do custo de vida, da burocracia, da corrupção política e da exploração cotidiana do povo. Mas Belmonte foi muito além da caricatura. Era também pintor, escritor, jornalista e um historiador atento, sobretudo da história paulista. A própria construção visual do ícone dos Bandeirantes recebeu forte influência de seus traços. Esse interesse pela história do estado o aproximou do intelectual atibaiense João Batista Conti, com quem estabeleceu respeitosa amizade.
Em 1947, por ocasião da morte precoce do cartunista, João Conti publicou no jornal O Atibaiense uma matéria, assinada com o pseudônimo SDA, na qual recorda alguns episódios dessa convivência.Em certo trecho, relata que recebeu em casa uma encomenda enviada por um emissário de Belmonte: uma gata. Tratava-se de um filhote de Cinza, a felina de estimação e grande paixão do artista. Naturalmente, o filhote recebeu o mesmo nome.
Mais adiante, Conti narra a tentativa de trazer o amigo para se tratar em Atibaia: “Um dia soube-o doente. No DEIP me informaram que seu estado era grave. Convidei o então para convalescer-se em Atibaia, cujo clima, dizia-lhe eu, curava tudo, até manhã de caricaturista. E veio a resposta: Caríssimo amigo… Bom dia! Demorei um pouco em responder a sua generosíssima carta porque desejava fazer-lhe a surpresa de aparecer aí de repente. Mas não me foi possível… E vai esta carta em meu lugar. Agradeço-lhe, sinceramente comovido, o convite que me fez para passar uns dias nessa maravilhosa Atibaia, convite feito de tal forma que demonstra um interesse de verdadeiro amigo, infelizmente, a minha licença termina no fim do mês, o que me obriga a deixar para mais tarde a visita que lhe devo e o abraço que tenho de levar ao ‘soldado desconhecido atibaiano’. E agora uma reclamação do Juca Pato: Como é que o amigo vem a São Paulo e não aparece na casa do Juca para tomar um cafezinho? Em todo caso agradeço ainda uma vez o generoso convite e prometo, dentro empouco tempo, aparecer por aí, ao menos para estreita-lo num abraço épico. Do amigo de sempre, Belmonte. Rua Atibaia, 129. P.S. Veja em que rua eu moro e diga se isso já não é alguma coisa!”No encerramento da matéria, João Conti lamentava a perda do amigo:”E ele nunca veio. Agora desapareceu entre os vivos essa figura brilhante da intelectualidade paulistana. É mais uma alma boa que desfalca o patrimônio da bondade na terra, para enriquecer a do céu. Belmonte morreu! Se algum dia, sobre seu túmulo, alguém vir umas flores de Atibaia, há de vislumbrar por entre as saudades estas palavras: Ao Belmonte do Soldado Desconhecido Atibaiano!”
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


