HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O Chafariz de Atibaia foi inaugurado em 1895

Márcio Zago

Muito antes da facilidade de abrir uma torneira e ter água em casa, era no chafariz que grande parte dos moradores da área urbana se abastecia desse recurso essencial. Segundo o pesquisador Adriano Bedore, o primeiro chafariz da cidade foi inaugurado em 1895, após a implantação de um sistema de encanamento que levava água até ele. Antes disso, a população recorria diretamente às inúmeras bicas espalhadas pela região. Em 1950, um novo chafariz foi construído na praça que havia em frente ao Clube São João. Já sem a importância prática que tivera no passado, quando era indispensável ao abastecimento da população, esse novo equipamento passou a desempenhar uma função predominantemente ornamental. Ainda assim, sua construção provocou intensa polêmica, não exatamente pela necessidade da obra, mas pelo acalorado debate estético que despertou entre alguns moradores.
Tudo começou quando o jornal O Atibaiense publicou um artigo com o mesmo título desta matéria. O texto era assinado por João Luiz Chaves, artista plástico integrado ao grupo de ativistas culturais daquele período, liderado por André Carneiro. A construção do chafariz foi realizada por Artur Tavares Rodrigues, funcionário público que, ao que tudo indica, era uma pessoa simples e exercia uma função braçal no quadro da Prefeitura local. A obra, inteiramente executada em cimento, foi descrita da seguinte forma: “O chafariz é composto de uma base de pedra, muito bem feita. Sobre a mesma, quatro figuras de homens sustentam um disco e, sobre este, outra figura de homem com uma inscrição: ‘Silêncio’”. Os demais personagens também ostentavam placas com frases e dizeres que, aparentemente, não apresentavam conexão entre si. João Luiz Chaves, pintor e gravurista bastante informado e atento às discussões artísticas de seu tempo, adorou o chafariz e escreveu um extenso artigo no qual elogiava os achados estéticos do simples construtor.
Após uma longa introdução sobre a evolução das artes plásticas: dos desenhos rupestres de Altamira aos modernistas, passando pelo Impressionismo e pelo Futurismo, identificou em Artur Rodrigues um legítimo artista popular e concluiu: “Temos a impressão de que em Atibaia apareceu tal fenômeno (referindo-se ao artista popular). Seremos uma das poucas cidades do mundo a possuir, em praça pública, uma obra de escultura primitiva, de puríssimo sabor, digna do maior respeito, que precisará ser guardada como relíquia nossa.” A opinião de João Luiz Chaves, contudo, estava longe de ser consensual. Na edição seguinte surgiu nas páginas de O Atibaiense um artigo assinado por G.N., contestando sua posição. Segundo o autor, a obra desagradava à população e deveria ser removida. Seu principal incômodo estava nas frases inscritas pelo construtor. Expressões como “Não ADE ser nada velho — contenta-te comigo” ou “Gosado os dois. Estão se DEVERTINDO”.
As frases seriam, em sua opinião, motivo de constrangimento para a cidade em razão dos evidentes erros de português. Ao final do texto, G.N. propunha a realização de um plebiscito para decidir o destino do chafariz. No artigo seguinte de João Luiz Chaves, as placas com as polêmicas inscrições já haviam sido retiradas. E assim, nesse bate-rebate de opiniões, diversos textos foram publicados até que o próprio jornal divulgou uma nota encerrando a controvérsia. Ficamos sem saber se, afinal, o chafariz permaneceu no local ou foi destruído. Embora possa parecer um episódio isolado, a discussão refletia um debate estético mais amplo que então ganhava espaço na cidade.
O grupo de ativistas culturais ligado a André Carneiro procurava difundir concepções associadas à arte moderna, nas quais a representação figurativa tradicional cedia espaço à livre expressão e à valorização de formas simbólicas e não convencionais. Nesse contexto, a defesa do chafariz por João Luiz Chaves ultrapassava a simples apreciação de uma obra pública: representava também a valorização da criatividade espontânea e da produção artística popular, princípios que dialogavam com as transformações estéticas em curso naquele período.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”. Criador e curador da Semana André Carneiro.