HISTÓRIAS DE ATIBAIA – A primeira Biblioteca Pública Municipal (Parte 3)
A biblioteca nasceu da iniciativa dos dois escritores, que deram início ao acervo com cerca de duzentos livros de suas coleções particulares.
Márcio Zago
Conforme artigo anterior, pouco tempo após sua inauguração, em 1947, a Biblioteca Pública Municipal de Atibaia passou a enfrentar uma significativa polêmica relacionada à sua transferência da Praça Claudino Alves para o Ginásio Atibaiense. O debate teve início com um artigo publicado no jornal A Gazeta de Atibaia, assinado por Joaquim Vasconcelos, no qual o autor questionava a legitimidade da mudança. Segundo ele, a biblioteca não pertencia a seus fundadores, mas sim aos sócios contribuintes e às pessoas que haviam doado livros para a formação do acervo. Sua posição ganhava ainda mais peso por ter participado da reunião inaugural convocada por César Mêmolo Junior e André Carneiro, encontro que deu origem à biblioteca. Para compreender os motivos da transferência, é necessário retomar o contexto de sua criação.
A biblioteca nasceu da iniciativa dos dois escritores, que deram início ao acervo com cerca de duzentos livros de suas coleções particulares. Bastou uma simples campanha de doação por novos livros e o projeto cresceu rapidamente. Em pouco tempo, porém, tornou-se evidente a dificuldade de manter a instituição sem apoio. Diante desse cenário, optou-se por transferir a biblioteca para o patrimônio da SADA — Sociedade Amigos de Atibaia, entidade que dispunha de melhores condições financeiras e jurídicas para assegurar sua continuidade.
A decisão, no entanto, não foi consensual e já despertava críticas entre parte da comunidade. Com o apoio da SADA, a biblioteca foi inaugurada, mas sua manutenção continuava sendo um desafio. Iniciativas como chás dançantes e outros eventos de arrecadação mostravam-se insuficientes para cobrir as despesas. Como alternativa, instituiu-se uma campanha de sócios contribuintes: mediante o pagamento de uma taxa mensal, os associados passaram a ter o direito de retirar livros para leitura domiciliar por um período determinado. Esse novo modelo trouxe fôlego à instituição e possibilitou, inclusive, a contratação de sua primeira secretária e colaboradora, a senhorita Elza Soldeira.
Entretanto, novos problemas surgiram. Os livros emprestados retornavam em condições precárias, o que levou os responsáveis a consultar um especialista em biblioteconomia. Sua avaliação foi categórica: mantido aquele ritmo de uso e conservação, o acervo poderia desaparecer em apenas dois anos. Tornou-se, então, indispensável adotar medidas de preservação, como o constante encapamento das obras e a desinfecção do material devolvido, procedimentos que demandavam mais estrutura e a contratação de novos funcionários. Somavam-se a essas dificuldades questões estruturais mais amplas.
A SADA começava a enfrentar um processo de esvaziamento, e o prédio onde funcionava sua sede (que também abrigava a biblioteca) foi requisitado por seus proprietários. Diante desse impasse, a solução encontrada foi transferir a biblioteca para o recém-inaugurado Ginásio Atibaiense. Em meio à polêmica, em junho de 1948, seus fundadores, César Mêmolo Junior e André Carneiro, encaminharam um ofício ao Conselho Diretor da SADA solicitando seu afastamento das funções que exerciam.
No documento, registraram: “Os abaixo-assinados, César Mêmolo Junior e André Carneiro, respectivamente 1º e 2º bibliotecários da Biblioteca Pública de Atibaia (patrimônio da SADA), vêm pela presente resignar e depositar nas mãos de VV. SS. os cargos ocupados até agora, exercidos com a máxima dedicação. Os bibliotecários, que são também os idealizadores e fundadores da Biblioteca Pública, julgam que a tarefa mais difícil, a de reunir o valioso patrimônio que a biblioteca agora ostenta, está cumprida. A SADA possui, em seu seio, homens capacitados que certamente darão continuidade à nossa criação, desenvolvendo cada vez mais suas coleções e ampliando seus serviços. (…)” O afastamento de seus fundadores marcou o fim de um ciclo e o início de uma nova fase na história da biblioteca. Entre tensões, desafios e transformações, consolidava-se ali não apenas uma instituição, mas um importante capítulo da vida cultural de Atibaia, fruto do idealismo de seus criadores e do envolvimento da comunidade.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


