HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O II Congresso Paulista de Escritores

A delegação reunia alguns dos nomes mais expressivos da intelectualidade paulista, entre eles Antônio Candido, José Geraldo Vieira, Afonso Schmidt, Décio de Almeida Prado, Sérgio Buarque de Holanda e Sérgio Milliet, entre outros.

Márcio Zago

Em junho de 1948, o jornal O Atibaiense noticiava a participação do escritor atibaiense André Carneiro no II Congresso Paulista de Escritores, realizado na cidade de Jaú, no interior de São Paulo. A delegação reunia alguns dos nomes mais expressivos da intelectualidade paulista, entre eles Antônio Candido, José Geraldo Vieira, Afonso Schmidt, Décio de Almeida Prado, Sérgio Buarque de Holanda e Sérgio Milliet, entre outros.
O encontro tinha como propósito central discutir os rumos da literatura brasileira num contexto marcado pelo pós-guerra, momento em que os movimentos literários e culturais buscavam redefinir seu papel na sociedade. Entre os temas em pauta estavam a valorização da atividade intelectual, as condições de trabalho do escritor e o reconhecimento da literatura como profissão. Escritores de várias cidades do interior participaram do evento, como João de Sousa Ferraz, representante de Limeira, e André Carneiro, por Atibaia.
Sua tese, intitulada “O intelectual do interior e a divulgação de sua obra”, revelava a preocupação de desenvolver sua produção literária na própria cidade onde vivia, sem a necessidade de migrar para os grandes centros, como era comum no meio artístico da época.
O trabalho foi amplamente elogiado por Antônio Candido, que afirmou que “ela expunha admiravelmente o problema”. Segundo matéria de O Atibaiense, a tese abordava “assuntos concernentes ao contato de intelectuais do interior com os da capital e as possibilidades de maior número de colaboradores do interior nas publicações de mais ampla divulgação”, além de propor a criação de um organismo dentro da ABDE (Seção de São Paulo) que pudesse solucionar satisfatoriamente a questão. A ABDE — Associação Brasileira de Escritores, fundada em 1942, foi a entidade responsável pela organização dos Congressos Brasileiros e Paulistas de Escritores. Após a realização do II Congresso, César Mêmolo Junior, também participante do evento, escreveu para O Atibaiense uma longa matéria destacando seus desdobramentos: “(…) Neste II Congresso várias medidas de ordem prática foram discutidas visando ao erguimento do nível cultural do interior do Estado, com ampla divulgação didática sobre a arte contemporânea em geral. Dentre estas, salientamos como a mais importante a que diz respeito à criação de Casas de Cultura. (…) Elas já existem em Santos, Jaú, Limeira e outras cidades. Facilitada sobremaneira a sua criação agora, é de se acreditar que dentro de cinco a dez anos haverá uma em cada localidade, proporcionando recitais de poesia, conferências sobre artes plásticas, exibições de filmes com ensaios estéticos, exposições de pintura moderna com debates, além de bibliotecas circulantes e outras iniciativas (…)”.Como se nota, a preocupação dos intelectuais da época já incluía a difusão sistemática da cultura para além dos grandes centros urbanos.
A ideia da existência de uma Casa de Cultura em cada cidade do interior, sonhada no II Congresso Paulista de Escritores, antecipava concepções que só viriam a se concretizar seis décadas depois. Essa visão encontra paralelo nos atuais Pontos de Cultura e nas políticas públicas estruturadas a partir da criação do Sistema Nacional de Cultura, mostrando que muitas das propostas formuladas em 1948 ainda permanecem como referência para a democratização do acesso à arte e à produção intelectual no país.

* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.