Atibaia recebe haitianos entre os migrantes que procuram o país

Numa esquina perto de casa, em Atibaia, conversei em dezembro rapidamente com um haitiano. Sua presença entre nós, como trabalhador de uma empresa de limpeza, já sabendo falar o português básico e tendo como língua original o francês, mostra que a nossa cidade também integra a geografia daqueles que precisam sair de situações economicamente difíceis – sem contar as questões políticas – em seus países de origem. A feminização dos registros, com crescente número de mulheres como chefes de família, revela transformações profundas na composição e nas dinâmicas dessa população.
Lançado recentemente em Brasília, o estudo Análise de dados secundários sobre a integração socioeconômica da população haitiana no Brasil foi conduzido pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) em parceria com o ACNUR (Nações Unidas para Refugiados), importante para compreender desafios e oportunidades da população haitiana em seu processo de integração socioeconômica. O estudo foi financiado pelo governo do Canadá, como parte do apoio oferecido para a inclusão dessa população.
Apesar dos avanços em políticas para acolhimento e inclusão, os dados indicam que os haitianos permanecem em situação de maior vulnerabilidade quando comparados a outros grupos de refugiados e migrantes, devido a barreiras como idioma, perfil socioeconômico, discriminação, xenofobia e racismo. Entre 2010 e 2020, a modalidade de acolhida humanitária concentrou mais de 106 mil registros e, entre 2021 e 2024, representou mais de 80% das regularizações.
A partir de 2015, a Reunião Familiar despontou como segunda principal via de regularização, evidenciando o processo de reunificação e consolidação comunitária, e em 2023, superou a Acolhida Humanitária na emissão de vistos, passando a ser a primeira via de documentação. Se nos primeiros anos predominavam homens em idade produtiva (25 a 39 anos), a partir de 2013 observa-se aumento significativo de mulheres, crianças e idosos, conforme registros da Polícia Federal e do Cadastro Único (CadÚnico) e de mulheres haitianas no mercado de trabalho.

* Luiz Gonzaga Neto é jornalista, analista em comunicação da Câmara de Atibaia e blogueiro, autor de brincantedeletras.wordpress.com.