HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Você já viu o Leão da Torre da igreja Matriz?

O objeto foi instalado após a reforma da igreja ocorrida depois que um raio atingiu a torre da Matriz durante uma tempestade consumada na última década do século XIX.

 

 

Márcio Zago

Nos anos quarenta, logo após deixar o cargo de prefeito, o historiador e folclorista João Batista Conti passou a escrever com frequência para o jornal O Atibaiense, sempre protegido pelo manto do anonimato e movido por uma irresistível curiosidade pelos assuntos da cidade. Em um desses artigos, voltou seu olhar para o leão instalado no alto da torre da Igreja Matriz.
João Conti (como era chamado) iniciava seu texto lamentando que tão poucos se dessem ao trabalho de erguer os olhos para admirar aquele objeto tão inusitado, até mesmo os conterrâneos mais atentos. Não foi o meu caso. Desde criança, aquele leão me fisgou o olhar. Cresci intrigado com sua presença silenciosa e, nos anos 1980, acabei incorporando sua imagem em uma história em quadrinhos que escrevi e desenhei sobre a cidade. Mas João Conti era pesquisador, e essa curiosidade o levou para o estudo, absorvendoum tempo considerável até descobrir qual a razão da igreja manter aquela grimpa em forma de leão no alto de sua torre e não um galo, como seria o normal.
Descobriu ele que o leão ali se instalou após a reforma da igreja ocorrida depois que um raio atingiu a torre da matriz durante uma tempestade consumada na última década do século XIX. A enorme fenda aberta pelo raio deixava a torre vulnerável e antes que ruísse sobre casas e pessoas, a antiga torre “esquia e esbelta, comparada a um pião ou bispo do jogo de xadrez” foi demolida, dando lugar a esta que aí está. Foi então que os abnegados contribuintes da reforma da igreja decidiram prestar uma homenagem ao papa reinante: O Papa Leão XIII. Estava esclarecido o mistério.
O leãozinho que vira de lado ao sabor dos ventos é uma singela homenagem ao Papa Leão XIII, uma representação simbólica do Papa que, em seus vinte e cinco anos de pontificado ganhou admiração e veneração da comunidade católica.Leão XIII era predominantemente conservador, mas com um perfil que buscava conciliar a tradição com as demandas modernas da época, sendo lembradapela autoria da Encíclica RerumNovarum, uma carta aberta publicada em maio de 1891, que refletia sobre as mudanças tecnológicas provocadas pela Revolução Industrial e o impacto sobre os trabalhadores.
Mais de um século depois o papa atual escolheu reviver o nome Leão XIV, talvez para sinalizar as prioridades para seu papado, ao relembrar um pontífice conhecido por sua atenção à justiça social, aos salários justos e as condições de trabalho seguras. De um Leão a outro, muita coisa mudou, principalmente em relação aos instrumentos de trabalho, mas a luta de classes continua atual e merecendo a atenção de todos, inclusive da igreja.