HISTÓRIAS DE ATIBAIA – O concurso literário e os novos escritores de 1948
A intenção do Concurso Literário Juvenil era oferecer um espaço para o surgimento de novos escritores da cidade.
Márcio Zago
Em maio de 1948, o jornal O Atibaiense anunciava o início do Concurso Literário Juvenil por meio do suplemento “Letras e Artes”. Em pouco tempo, o caderno passaria a ser conhecido na intelectualidade paulista graças ao empenho dos jovens escritores locais André Carneiro, sua irmã Dulce e César Mêmolo Junior. O suplemento já abrigava nomes de projeção como Cyro Pimentel, Domingos Carvalho da Silva e Jamil Almansur Haddad, entre outros. De Atibaia, além dos três coordenadores, escreviam com frequência Donozor Onofre Lino e Oswaldo Barreto Filho.
A intenção do Concurso Literário Juvenil era oferecer um espaço para o surgimento de novos escritores da cidade. As regras eram simples: seriam aceitas composições sobre quaisquer temas, desde que datilografadas ou manuscritas de maneira legível, em apenas um lado do papel. Os trabalhos deveriam ter, no mínimo, uma folha e, no máximo, três. O texto selecionado seria publicado no primeiro domingo de cada mês, e as demais composições receberiam comentários na seção “Caixa Postal”, também integrante do “Letras e Artes”.
O concurso ganhou prestígio quando a Editora Brasiliense, por meio de um de seus diretores, passou a oferecer um livro por mês aos vencedores. Algumas semanas depois tiveram início os primeiros comentários na seção “Caixa Postal”… E eles não eram nada complacentes. Assinando sempre com pseudônimos, outra regra do concurso, os participantes viam seus textos dissecados pelos jovens organizadores. Em um deles, o trio dispara: “(…) Sua história é confusa, desinteressante e falta a ela a unidade necessária para ser um conto. Infantil o assunto e, quanto ao estilo, você utiliza imagens banais, como ‘solo radioso e quente’, ‘lua de prata’, etc. ‘Passarinhos cantores dos bosques da montanha’ fica piegas. (…) Evite usar vocábulos estrangeiros. Aquele ‘Life in the country’ (nome de canção tirada à flauta mágica?) é injustificável e parece desejo de mostrar erudição. Procure escrever sobre temas nossos, mais fáceis de serem abordados… (…) Leia os bons escritores nacionais, aprendendo deles tudo o que puder. Continue escrevendo e mandando seus trabalhos, pois todos começam exatamente como você.” A crítica do tipo “morde e assopra” foi adotada durante todo o período do concurso.
Apesar da aparente dureza, a iniciativa contou com participação considerável. A intenção dos organizadores era qualificar o espaço conquistado com o suplemento “Letras e Artes”, e não apenas agradar ou adular os leitores do jornal. A estratégia deu certo ao conquistar a adesão de inúmeros escritores de peso da literatura nacional, que passaram a colaborar com o periódico. Alguns meses depois, o grupo criaria o suplemento literário “Tentativa”, um impresso independente que alcançou notoriedade nacional e até internacional, levando o nome de Atibaia muito além de seus limites territoriais.
Os escritores iniciantes da cidade, que tiveram o desprendimento de enviar seus textos e enfrentar uma crítica tão severa, receberam também orientações valiosas para quem pretendia se profissionalizar na arte da escrita. Isso revela uma característica marcante daqueles três jovens ativistas culturais de Atibaia: ao contrário de muitos artistas que deixam sua terra natal para seguir carreira, eles trouxeram para a cidade o que havia de mais vivo no campo cultural, buscando beneficiar a população e deixando, como consequência, um legado expressivo para a história cultural do município.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.

