HISTÓRIAS DE ATIBAIA – A literatura em Atibaia nos anos quarenta
Em 1940 a literatura passou a ocupar o centro de seus interesses, levando-os a publicar sistematicamente seus textos no periódico.
Márcio Zago
A segunda metade da década de 1940 foi particularmente fértil para a cultura em Atibaia, sobretudo no campo da literatura. Diversos fatores contribuíram para esse florescimento: a valorização das iniciativas culturais durante a gestão de João Batista Conti à frente da prefeitura; a criação do Ginásio Atibaiense, que ampliou o acesso à formação intelectual; e, principalmente, o fato de o jornal O Atibaiense pertencer, naquele período, ao empresário César Mêmolo. Foi nas páginas desse jornal que três jovens artistas encontraram o espaço propício para desenvolver sua produção e projetar a literatura atibaiense para além das fronteiras locais. Foram eles: César Mêmolo Junior, filho do proprietário do jornal, e os irmãos André e Dulce Carneiro.
Nesse momento, a literatura passou a ocupar o centro de seus interesses, levando-os a publicar sistematicamente seus textos no periódico. Inicialmente de forma esparsa, mas já privilegiando temas ligados à cultura, os três ampliaram gradativamente sua atuação até a criação da coluna “Sociedade”, espaço em que intensificaram suas produções autorais, com destaque para a poesia. A coluna seria posteriormente rebatizada como “Letras e Artes” e, mais adiante, “Suplemento Literário”. Até então integrada às páginas do próprio jornal, a iniciativa ganhou novo fôlego em 1949, com a criação do tabloide encartado “Tentativa”, que viria a ser considerado, segundo críticos da época, um dos melhores jornais literários do Brasil.
O impulso dado à literatura pelo trio atraiu outros escritores locais e da região, que passaram também a intensificar sua produção. Foi o caso de Oswaldo Barreto Filho e Donozor Lino. A organização de caravanas literárias ao município e a articulação dos artistas em associações, como a seção local da Associação Brasileira dos Escritores (ABDE), consolidaram de forma inédita o movimento literário na cidade. Atibaia passou, então, a ser conhecida e reconhecida por escritores consagrados do cenário nacional, a ponto de Oswald de Andrade, alguns anos mais tarde, identificar ali o que denominou “Escola de Atibaia”, em referencia a Escola Mineira de Literatura.
O entusiasmo pela literatura irradiou-se para outros setores da vida cultural alcançando também os principais estabelecimentos de ensino da época, como o Grupo Escolar José Alvim e o Ginásio Atibaiense, ampliando ainda mais o alcance desse notável momento cultural. Em setembro de 1948 surgiu o “O Pica-pau Amarelo”, um jornalzinho literário infantil realizado pelos alunos do Grupo Escolar José Alvim, com apoio de professores e da diretoria da escola.
O nome era uma clara homenagem ao escritor Monteiro Lobato que havia falecido recentemente. Sobre o jornalzinho O Atibaiense publicou: “Ao nosso confrade ‘mirim’, auguramos o mais luminoso porvir, pois suas finalidades são para despertar em nossos escolares o gosto pela leitura e o desembaraço pela escrita…”. Já os alunos do Ginásio Atibaiense, hoje E. E. Major Juvenal Alvim, promoveram no mesmo ano um recital de poesia através do Grêmio Estudantil. A festa contou com declamação de poesia, paródias sobre a técnica teatral de Nelson Rodrigues e homenagens a escritores consagrados como José Geraldo Vieira, que recentemente havia sido eleito para a Academia Paulista de Letras na vaga de Monteiro Lobato. Como se nota, a literatura pode ser considerada a mais representativa área artística do segundo período de maior efervescência cultural do município. O primeiro foi o teatro, no inicio de século XX, com a urbanização da cidade e a terceiranos anos oitenta, quando as ações culturais ganharam força com o movimento ecológico que culminou no tombamento da Pedra Grande.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


