Estado de alerta: A quem interessa o silêncio das mulheres?
Ansiedade social (sobretudo feminina) diante de uma avalanche de casos de violências.

Você abre qualquer rede social e, a depender de quantos portais de notícias você segue e do enviesamento do seu algoritmo, rapidamente você já terá acessado vídeos, manchetes, fotos sensíveis borradas (ou não) e estatísticas sobre a escalada vertiginosa da violência no Brasil e no mundo.
Tentativas de feminicídio, guerras e conflitos armados, estupros de vulnerável, desaparecimento, assaltos, sequestros, corrupção, violência contra pessoas idosas, atentados… Tudo num estalar de dedos ou no rolar de uma tela.
Se você não está absolutamente anestesiado diante da vida, é bem provável que sinta certo aperto no peito, boca seca, nó na garganta e, principalmente se você for uma mulher, não duvido que sua mente comece a calcular rotas de fuga e, pior que isso, que seus pensamentos sofram a intrusão imaginativa dos piores cenários de violência a que poderíamos ser submetidas ao sair de casa, até mesmo dentro de nossas casas.
Pois é, seja bem-vindo ao mundo da ansiedade social. Não é apenas a existência da violência que nos impacta, mas a forma como ela chega até nós, numa constância e fragmentação arrebatadoras. A gente não sabe se compartilha, comenta, se devemos nos posicionar, ignorar ou sair correndo para as montanhas. A realidade que não queremos encarar é que até mesmo se formos para o “meio do nada”, ainda estaremos na nossa companhia. E a nossa mente precisa se tornar um lugar pacífico em que nos sentimos confortáveis para habitar.
A experiência emocional coletiva diante da barbárie é sinal de que não nos dessensibilizamos a ponto de não nos identificarmos com a dor de uma adolescente de 17 anos estuprada por cinco homens, a revolta de sua mãe. É impossível não sentir, como mulher ou qualquer ser humano, o estômago doer só de pensar na recepcionista de hotel que tinha 7% de chance de sobreviver depois de ser espancada até desmaiar por um hóspede que não aceitou que ela não quis beijá-lo. E se eu começar a listar os casos das últimas duas semanas, vão ser necessárias todas as páginas deste Jornal e talvez me faltem palavras para mensurar o imensurável.
Não pretendo com esta coluna resolver todos os problemas da humanidade, não tenho essa pretensão, mas te deixo um recado: calma. Ainda, um recado a mais se você for uma mulher: não permita que esse cerco de medo te aprisione e te furte momentos de liberdade e vivência. A desesperança é o sentimento mais reacionário que pode existir e nosso enclausuramento só interessa ao patriarcado. Considerando que a maioria esmagadora dos casos de violência contra crianças, adolescentes e mulheres acontece dentro das 4 paredes do que deveria ser um lar, esse sequestro da nossa liberdade não faz sequer sentido.
Viva. Mantenha-se informado, mas procure não dar esse poder para a violência. Busque sua liberdade, sonhe alto, planeje feitos grandiosos e faça disso seu ato de revolução diária. Escolha viver para além de sobreviver. Reivindiquemos conquistas de direitos fundamentais para que todos e todas tenham a possibilidade de tocar seus sonhos sabendo ser possível um projeto de vida, de Brasil e de humanidade diferentes. Nenhum de nós será totalmente livre enquanto um de nós ainda arrastar correntes.


