QUEM EM BOCA VAI A LUTA: Metas para a infância brasileira em 2026
Papel e caneta na mão para fazer desse um ano melhor para as crianças e adolescentes.

Anna Luiza Calixto
Quando falamos em prioridade absoluta, nos termos da Constituição e do Estatuto da Criança e do Adolescente, a impressão que fica é a de um conceito impalpável. Mas precisamos transformar esse princípio em metas claras, mensuráveis e inegociáveis. Metas como decisão, não intenção.
Para isso, a primeira delas deve ser colocar a infância no centro do orçamento público. Não como sobra, não como percentual simbólico, mas como eixo estruturante. Educação, saúde, assistência, cultura e lazer precisam conversar entre si, com financiamento garantido e execução monitorada. Prioridade absoluta não combina com improviso.
A segunda meta é escuta qualificada de crianças e adolescentes. Não se trata de romantizar a participação infantil, mas de cumprir a lei. Crianças têm direito à opinião, à expressão e à participação na vida comunitária e política. Isso exige metodologias, espaços institucionais e formação de profissionais. Escutar crianças não atrasa decisões — qualifica políticas.
A terceira é educação pautada na proteção e na autonomia. Em 2026, não é aceitável que escolas ainda evitem falar de corpo, limites, consentimento e redes de apoio. Aprender a dizer não, reconhecer toques abusivos, compreender que segredos que machucam devem ser rompidos não é ideologia: é prevenção. Uma infância protegida começa com informação adequada e responsável.
A quarta meta é enfrentamento real das violências contra crianças e adolescentes. Isso significa fortalecer redes de proteção, garantir funcionamento dos conselhos tutelares, integrar saúde, educação e assistência social e assegurar canais de denúncia acessíveis e eficazes, investindo em qualificação profissional do sistema de garantia de direitos
A penúltima meta é valorizar quem cuida. Profissionais da educação, saúde e assistência social precisam de formação continuada, condições dignas de trabalho e reconhecimento. Não existe política pública de infância forte sem trabalhadores protegidos e valorizados. Cuidado não é voluntariado,éum trabalho essencial.
E, por fim, a sexta meta precisa ser coletiva: responsabilização social contínua. A infância não é um tema que se resolve em gabinete. Acompanhar audiências públicas, participar de conselhos, fiscalizar orçamentos, denunciar violações e votar com consciência são ações permanentes, não gestos pontuais de indignação ou de compromisso eleitoral.
2026 pode ser o início de um pacto real com crianças e adolescentes, não como futuros cidadãos, mas como sujeitos de direitos no presente. Porque toda criança é nossa criança. E toda prioridade que não se materializa em meta, orçamento e ação é apenas discurso bem ensaiado.
Pode vir, 2026. Mas que venha com compromisso, proteção e e prioridade às crianças e adolescentes.


