HISTÓRIAS DE ATIBAIA – Atibaia e o 1º Congresso Paulista de Poesia
O encontro reuniu importantes poetas e intelectuais da época, gerando ampla repercussão no cenário literário nacional.
Márcio Zago
Em 1947 surgiu a Revista Brasileira de Poesia, publicação fundamental para a chamada Geração de 45, considerada a terceira fase do Movimento Modernista brasileiro. De modo geral, o Modernismo costuma ser dividido em três momentos: a primeira fase (1922–1930), iniciada com a Semana de 22 e marcada pela ruptura com o passado e por um nacionalismo radical; a segunda fase (1930–1945), caracterizada pelo realismo social e pelo engajamento político e cultural; e a terceira fase, no período pós-guerra, conhecida como Geração de 45, que se destacou por uma linguagem mais elaborada, pela experimentação formal e por uma prosa e poesia de caráter mais intimista e existencial. Em maio de 1948, os idealizadores da Revista Brasileira de Poesia promoveram o 1º Congresso Paulista de Poesia, que aconteceu nas imediações da Biblioteca Municipal de São Paulo.
O encontro reuniu importantes poetas e intelectuais da época, gerando ampla repercussão no cenário literário nacional. Por votação, Sérgio Milliet foi eleito presidente do Congresso, tendo José Geraldo Vieira como vice-presidente. A secretária-geral coube a Domingos Carvalho da Silva. Entre os participantes encontrava-se André Carneiro, que tomou parte do evento como representante da poesia do interior, levando também, por consequência,o nome de Atibaia a um seleto círculo de artistas e intelectuais paulistas. Das sete teses aprovadas, uma provocou intensas controvérsias entre os congressistas: a de Domingos Carvalho da Silva, intitulada “Há uma nova poesia no Brasil”, ocasião em que a expressão Geração de 45 foi definitivamente incorporada ao movimento que então se afirmava.
A tese “Poesia Moderna e Comunicação” de André Carneiro foi apresentadaà comissão organizadora sendo, em seguida, aberta ao debate. O primeiro a se manifestar foi Oswald de Andrade, considerado o mais eloquente orador do Congresso e um dos principais expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922. Embora tenha inicialmente discordado de algumas colocações de André Carneiro, Oswald acabou convencido pela argumentação, inteligência e firmeza de convicções do poeta atibaiano.
Essa polêmica revelou-se decisiva para o início de uma longa e duradoura amizade entre ambos. O Congresso teve importância não apenas para a literatura nacional e para a projeção de André Carneiro no cenário literário brasileiro, mas também para a própria cidade de Atibaia. A partir desse episódio, o município passou a ser conhecido e reconhecido nos meios intelectuais paulistas e, posteriormente, em âmbito nacional. Essa projeção foialcançada graças a um pequeno grupo de artistas locais liderados por André Carneiro, abrindo caminho para um intenso intercâmbio entre o movimento modernista e a cidade.
Diversos acontecimentos posteriores confirmaram essa relação, como a criação do jornal literário Tentativa, inteiramente produzido em Atibaia; a realização de duas exposições de arte moderna nos anos 1950, com a presença de artistas de grande projeção nacional como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Sergio Milliet, Aldemir Martins, Aldo Bonadei, Cícero Dias, Flávio de Carvalho entre outros; além da execução do painel modernista que ainda hoje se encontra no Parque Edmundo Zanoni. Estes acontecimentos evidenciam a relevância que a cultura assumiu na cidade ao estabelecer uma relação tão estreita com o Modernismo. Atibaia é uma das poucas cidades do interior paulista que construíram um vínculo tão intenso e consistente com o movimento e esse fatoreforça a importância de André Carneiro e também do jornal O Atibaiense nesse contexto. Um por ter dado visibilidade nacional, e até internacional a cidade, o outro, por seu papel de difusor de ideias, um verdadeiro porta-voz das novas concepções estéticas que surgiam.
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


