HISTÓRIAS DE ATIBAIA – André Carneiro e o 1º Congresso Paulista de Poesia
A importância desse congresso está ligada à oficialização e consolidação da chamada Geração de 45, movimento que buscava retomar o diálogo com o modernismo paulista.
Márcio Zago
Em maio de 1948, o jornal O Atibaiense noticiou a participação de André Carneiro no 1º Congresso Paulista de Poesia, ocasião em que foi eleito secretário da mesa diretora e convidado a representar os congressistas do interior em seu discurso oficial. Até então, André Carneiro já mantinha presença destacada nas páginas do Atibaiense como colaborador permanente e ex-redator-chefe. O congresso marcou sua primeira participação em um grande evento intelectual, inaugurando um percurso que, a partir dali, seria constante em encontros e iniciativas de caráter literário.
A importância desse congresso está ligada à oficialização e consolidação da chamada Geração de 45, movimento que buscava retomar o diálogo com o modernismo paulista, contrapondo-se a uma poesia então considerada convencional. Realizado na Biblioteca Municipal de São Paulo, o encontro reuniu nomes centrais da poesia moderna, entre eles Péricles Eugênio da Silva Ramos, Sérgio Milliet, Domingos Carvalho da Silva, Carlos BurlamaquiKopke, Geraldo Vidigal, Antônio Candido, José Eduardo Fernandes, José Tavares de Miranda, Paulo Mendes de Almeida, Patrícia Galvão (Pagú), Oswald de Andrade, Lívio Xavier e Jamil Almansur Haddad, entre outros.
O evento promoveu longos e apaixonados debates sobre os rumos da poesia no Brasil, incluindo a defesa da ideia de um “espírito novo na poesia”, em sintonia com as mudanças políticas ocorridas no país em 1945. Esse primeiro congresso representou um marco na literatura e pode ser comparado, em importância, à própria Semana de Arte Moderna de 1922. A participação de André Carneiro foi decisiva para inserir seu nome no meio intelectual nacional, além de fortalecer a integração literária entre capital e interior, criando condições para o surgimento, poucos meses depois, do jornal literário “Tentativa”, totalmente produzido em Atibaia e que contou com a colaboração de importantes escritores brasileiros.
Em sua coluna “Sociedade”, que mantinha no Atibaiense, André Carneiro escreveu sobre essa experiência, abordando um aspecto mais “leve” do encontro. No texto Poetas e Poetas…, chamou atenção para o fato de que a imagem do poeta boêmio, frágil e adoentado ficara definitivamente para trás após a Semana de 22. Segundo ele: “Nunca se viu mais exuberante coleção de gente bem nutrida (que Geraldo Ferraz e Oswald de Andrade não nos ouçam); com os cabelos raspados à escovinha, e alguns poetas de pulmões possantes e voz poderosa apareciam nos locais das sessões como burgueses bem-comportados, o breque das esposas travando as possibilidades de alguma excessiva escapada lírica. Mesmo na interessantíssima reunião realizada no Bar do Teatro Municipal, os garçons trabalharam mais com águas minerais e guaranás, ausentes os absintos parnasianos e o whisky vulgar.” E concluía: “Não mais distinguiremos o poeta entre a multidão, se nos alertarmos ao comprimento dos seus cabelos, à displicência do seu vestuário. Mas os versos, sim, esses penetrarão a sensibilidade num abraço definitivo, sutis mensageiros feitos de pétalas e submissões, de cristal e angústia.”
* Márcio Zago é artista plástico, artista gráfico de formação autodidata, fundador do Instituto Garatuja e autor do livro “Expressão Gráfica da Criança nas Oficinas do Garatuja”.
Criador e curador da Semana André Carneiro.


