O fotógrafo do “imaginário segundo a natureza”

É engraçado. Hoje, todo mundo é “fotógrafo”. Com um celular, quem não sai por aí fazendo selfies e imagens de pessoas, coisas, paisagens e quetais? Pois é, mas quando se fala em “fotografia de arte”, uma entidade que paira sobre a falsa facilidade de apertar disparadores, a coisa muda de figura. A fila, de repente, fica curta, vão sobrando lugares na internet, na imprensa, nos livros e até nas exposições.
Um nome indiscutível da história da fotografia é Henri Cartier-Bresson. No ano passado, ganhei da amiga, escritora e professora Juliana Gobbe o livro “O imaginário segundo a natureza”, assinado por este “monstro sagrado” do instantâneo. Com sua famosa Leica, ele viajou pelo mundo (da China a Cuba) sempre com leve bagagem – a capacidade de se eclipsar para melhor colher o instante decisivo, mas dando sempre um sentido a este, nas palavras de Gérard Macé, na introdução ao volume.
O livro mostra que Cartier-Bresson foi excelente fotógrafo e grande escritor: “Fotografar é pôr na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. Quanto a mim, fotografar é um meio de compreender que não pode ser separado dos outros meios de expressão visual. É uma maneira de gritar, de libertar-se, não de provar nem de afirmar sua própria originalidade. É uma maneira de viver”.
Ele não acreditava na fotografia “fabricada” ou encenada. Disse que “a máquina fotográfica é um bloco de esboços, o instrumento da intuição e da espontaneidade, a senhora do instante, que, em termos visuais, questiona e decide ao mesmo tempo. É mediante uma grande economia de meios que chega-se à simplicidade de expressão. Deve-se sempre fotografar com o maior respeito ao objeto e a si mesmo”.
Foi apaixonado pela pintura, valorizava o trabalho da reportagem fotográfica e também a definição do tema, a composição, a técnica, os clientes. “Em fotografia, a menor das coisas pode ser um grande tema”. O detalhe se sobrepõe muitas vezes ao todo num evento. E existe, frequentemente, a frustração de não ter captado aquela alma do momento, aquele clima intraduzível e insolúvel. Só com muita imaginação para fazer arte diante da realidade.