A canoa virou

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Produção literária de Anna Luiza Calixto em análise do conto “A terceira margem do rio” de João Guimarães Rosa para o Coletivo Literário Atibaiense Kalúnia.

A canoa sou eu. Escolhida forte e arqueada em rijo, construí-me para perpetuar-me nas águas, para durar na água. De pau de vinhático, dura, mas feita para caber apenas o remador. O remador mora aqui dentro e ora me empurra, ora me afunda, ora repousa, ora avança em correntezas, ora é a própria correnteza, ora é âncora, ora sou eu.
Existo para navegar no rio fundo e calado sempre, largo de não se poder ver a outra beira, nem sua forma, nem apontar sua sombra, só imaginar seu contorno, delineando a quietude do espaço. Só pôr-se a pensar na sua margem: a de cá, a de lá, a terceira. A de dentro, a de fora, a nossa própria margem, que nos divide do mundo sem nos afastar dele.
A canoa é o ensejo, a oportunidade. Ao passo que ela distancia-se no decorrer abundante do rio, aproximamo-nos da ideia de perseguí-la, de adentrá-la, de ocupá-la, de acompanhá-la, de sê-la. Se, por um lapso de instante, deixo de ser a canoa, ela vai sem mim e passa a existir tão somente na minha terceira margem, no que não é dentro, nem fora de mim. A canoa é fora de si.
“Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”- três vernáculos distintos de um único encômio. Santíssima Trindade que, no rio, parece vir do além sobre a madeira da cruz. Eu, mim e o si, meu eu mesmo, nos reencontramos na correnteza, na violência das curvas e no horizonte infindo, plano. A sombra da nossa ausência vai feito um jacaré, comprida e submersa.
A canoa não voltou à terra firme. Viu chuva, viu vento, viu nevoeiro, viu-me. Comeu, cuspiu, vestiu-se, despiu-se, emagreceu, desertou-se, virou osso. Não pojava em nenhuma das duas beiras, não pisou mais em chão nem capim. Não falava mais com ninguém e ninguém dela falava, mas não se esquecia. A canoa emergia da memória, transbordando em sobressalto.
A canoa virou por deixá-la virar. E foi por causa de quem? Quem não soube remar? A canoa antecipa o dilúvio. Eu derramo. O rio, o rio-rio-rio, pondo perpétuo na tororoma. Se eu fosse a canoa e soubesse remar, eu tirava o sofrimento do fundo a nadar.
No devagar depressa dos tempos, não se condena ninguém de doido. Ninguém é doido, ou todos são. Eu me senti muito no meu sentido e, com um lenço, acenei para a canoa, que veio até mim. Na popa, ela urgia. Meu coração bateu no compasso do mais certo. Meu ponteiro despertou.
A canoa me escutou. Proou para a terceira margem. A canoa se levantou. Tremi, profundo, de repente. Tive medo, me tirei de lá. Estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Rio abaixo, rio a fora, rio adentro – o rio.
A canoa é o ensejo, a oportunidade. A canoa sou eu.
A canoa virou e a culpa é de quem? Sou o culpado do que nem sei.

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