Seu nome será lembrado?

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Rodrigo Seixas

Eu estava na estreia do Palmeiras no Campeonato Brasileiro deste ano, no jogo contra o Fortaleza de Rogério Ceni na casa Alviverde. Na zona mista (local onde passam jogadores, convidados e imprensa) o assessor de Luís Felipe Scolari, Acaz Fellegger, passou jornalista a jornalista entregando um papel, uma folha sulfite com os dados vitoriosos de Felipão.No currículo conquistas de Copa do Mundo, Libertadores, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e muitas outras (em um ranking de treinadores brasileiros feito pelo Globoesporte.com, Scolari era o mais vitorioso da lista). Àquela altura o time vinha em boa fase, por mais que do revés diante do São Paulo no Paulista tivesse provocado gritos e uma ameaça ao ônibus do clube.
O jogo diante do Fortaleza foi 4×0, dias depois fez o mesmo placar no Santos de Sampaolli. O time ficou 33 jogos invicto no Brasileiro e o alviverde pintou o campeão para muita gente.Teve a parada da Copa América e na volta o time caiu na Copa do Brasil, na Libertadores e não venceu mais nenhum jogo no Brasileiro e saiu da liderança. Felipão foi demitido. No Brasil, as coisas mudam muito rápido, o campeão da semana passada é o mais novo demitido na seguinte. Mas se olhar nos detalhes, o time desde que Felipão assumiu, mostrou os mesmos defeitos.
Felipão assumiu em agosto de 2018 e conseguiu colocar seu modelo de jogo na equipe, foi capaz de ganhar o elenco e rodar os jogadores nas partidas, além de recuperar jogadores que não vinham atuando muito bem com Roger. Deyverson e Dudu são os maiores exemplos.Taticamente, o time foi bem simples: 4–2–3–1, marcação por encaixe, linhas defensivas baixas, bolas longas e velocidade para definir a jogada no ataque. Uma estatística explica bem o time quando ataca: é a equipe com o menor número de passes por posse de bola, mas a que mais avança metros por segundo de posse no Campeonato Brasileiro. Quando o time adversário subia a marcação, era ainda melhor, porque sobrava espaço para os atacantes definirem as jogadas. “O objetivo era pressionar e fazer um gol nos primeiros 15 minutos, para depois ser reativo”. É como enxerga o jogo de Felipão o Leonardo Mirando do Globoesporte.com, igual jogava a Seleção Brasileira de 2014 treinada pelo mesmo treinador.
Em 2018 o Palestra foi um time intuitivo e confiante. Por mais que em alguns momentos o pragmatismo irritasse e mostrasse a outra face da equipe: um time com dificuldade de reagir dentro dos jogos, que tinha pouco poder de criação de jogadas e que precisava de espaço para poder jogar. Os erros se repetiram em 2019, quando os rivais brasileiros apresentam equipes melhores. O jogo do time já não funcionava tão bem, a confiança diminuiu e o treinador foi levado junto da onda de pressão que veio da torcida.
Para o lugar de Scolari, o escolhido foi Mano Meneses. Conhecido de Alexandre Mattos era o treinador de mais nome no mercado brasileiro, foi a escolha do clube que pensa em medalhões e que foi vista com desconfiança pela torcida. A desconfiança vem do passado corintiano do treinador e também do estilo de jogo de Mano ser semelhante ao de Scolari. Mano não gosta de defender por encaixes, prefere a defesa em linha e bem compacta. O que não muda é a prioridade pela defesa e o jogo direto. Está na mesma prateleira do antecessor, mas parece estar mais conectado com o futebol atual.
“Eu dirigi a seleção brasileira com Ramires e Paulinho. Vamos construir um trabalho juntos. Não tenho hábito de chegar e dizer qual maneira vai se jogar. Vamos fazer de maneira mais próxima, internamente. O Palmeiras tem um elenco com características de jogadores bem definidas para armar uma maneira muito legal de jogar. Tenho certeza de que precisa, pela ordem, produzir resultados, e a partir do resultado, que gera confiança, oferecer algo que seja mais bonito de se ver, que o torcedor gosta, que ao longo da história tem grandes referências. As próprias Academias tiveram características um pouco diferentes. A primeira pelo Filpo (Nuñez), a segunda pelo (Oswaldo) Brandão. Esse é objetivo de cada treinador, de cada trabalho”, foi o que disse Mano na apresentação.
Ele não quer adiantar de que maneira vai montar a equipe, mas quando diz que o time tem jogadores para armar, fala sobre ter mais a posse e criar chances. Olhando para a história o Palmeiras já foi campeão com as Academias, de futebol ofensivo, principalmente a de Filpo nos anos 60, assim como os times de Vanderlei Luxemburgo em 93-94 e depois em 96 com o time de 100 gols no Paulista. Assim como venceu com as equipes de Felipão nos últimos 20 anos. A torcida valoriza todos esses times, mas critica com mais facilidade as de futebol defensivo e pragmático. Se no final Mano for campeão, será aplaudido, o que o torcedor mais gosta é vencer, por mais que o estilo de jogo seja discutido por agora.
Em 1979 o Palmeiras fez 4×1 no Flamengo de Zico em pleno Maracanã. O time de Mococa, Jorginho, Jorge Mendonça e César Maluco era treinado por Telê Santana, um treinador que encantou o mundo nas vitórias e nas derrotas. “A seleção mais maravilhosa que já existiu”, assim define o Brasil de 1982 Pep Guardiola, um time derrotado. O Palmeiras de hoje tem dinheiro, bons jogadores, mas passa por um momento ruim. Poderia aproveitar e buscar algo para marcar a memória do torcedor além das taças.O time de Telê em 79 foi superado pelo Internacional de Falcão naquele Brasileiro, mas ficou marcado no tempo.
“E se depois de tantos anos, as pessoas ainda lembram daquele time é porque era muito bom. Não sei se lembram das seleções campeãs como lembram daquele time. Um livro é bom, um filme é bom, um time é bom quando passam 20, 30, 40 anos e ainda falam dele. E desse time [Brasil 82] ainda falam. E se falam é porque gera emoção. (…) O resto são números e estatísticas, isso é bobagem. O bonito é o que você pode causar e aquele Brasil foi um espetáculo”, justificou Pep Guardiola. O Palmeiras de Mano Meneses será lembrado?

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