O Brazil não conhece o Brasil

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As múltiplas facetas da criatividade e resiliência brasileiras – não raro associadas à trapaça e corrupção.

Anna Luiza Calixto

Tinha que ser no Brasil ou Se fosse no Brasil, vocês iam ver só…Espero ainda poder escrever sobre frases como estas – e tantas outras – de forma que não soe, logo a priori, pejorativo. Quando lhe digo Isto é coisa de brasileiro, no que é que você pensa? Por acaso vislumbra uma forma criativa de resolver problemas cotidianos? Ou, como é de se esperar, pensa na corrupção cotidiana que é tida como típica do nosso povo?
Por que, ao pensarmos na perversidade e trapaça de pessoas que conhecemos, relacionamos tais adjetos à cultura do nosso país? Somos, de fato, uma nação corrupta? Você se considera uma pessoa corrupta? Confesso que, em quase onze anos de ativismo, perguntei a dezenas de colegas se eles – como indivíduos sociais – consideravam-se corruptos. Em todas as conversas, ouvi de volta uma negativa. Seria possível, nesta lógica, que todos nós vivemos em um país corrupto formado por pessoas plenamente idôneas?
Uma vez que a significação léxica da palavra corrupção aponta “modificação, adulteração das características originais de algo”, será que – em algum ponto da nossa linha do tempo – perdemos a nossa original honestidade? Mesmo porque, quando falamos sobre corrupção, a discussão vai muito além dos escândalos de lavagem de dinheiro e os prêmios dados a quem os delatam. Corrupto também é aquele que estaciona em cima de uma faixa de pedestres ou em vaga destinada a um grupo ao qual não se pertence; aceita um troco superior ao justo por sua compra; cola em um exame avaliativo; passa em frente a alguém distraído em uma fila ou é admitido em um novo emprego, mas pede para que ainda não seja registrado porque deseja receber o remanescente do seu seguro. Em nosso senso de justiça, pequenas infrações como estas, cometidas em nome de um mero benefício pessoal, não contam? O sol brilha para todos, mas a sombra é para os espertos?
Por que não associar o tal jeitinho brasileiro à Alfredo Moser, o mecânico mineiro que inventou a luz engarrafada – uma garrafa pet cheia d’água presa ao telhado para que a sua refração ilumine a casa através da luz do sol e, assim, elimine o problema da queda constante da eletricidade no território em que vive? Ou aos médicos cearenses que, de forma experimental, utilizaram a pele de tilápiacomo curativo biológico para queimaduras severas em seus pacientes? Ou à Pedro Paulino, engenheiro que criou uma máquina que condensa a umidade do ar e a transforma em água potável? Ou à Santos Dumont, que venceu a gravidade e inventou um dos maiores meios de locomoção de todo o mundo: o avião?
A primazia da desvalorização da nossa produção nacional – do cinema ao turismo – nasce aqui, no que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira lata, quase carnal naqueles que nunca foram ao MASP mas parcelam em trinta e duas vezes sua visita ao Louvre. Ou batem continência para EUA, muito embora desconheçam a cultura brasileira ao ponto de – em nome da natureza – verbalizar que nosso país é uma virgem que todo tarado de fora quer (sou incapaz de contar quantas incoerências há nesta frase).
O verdadeiro jeitinho brasileiro é uma maneira criativa de resolver problemas cotidianos. É a forma resiliente de vencer quaisquer adversidades e reforçar: brasileiro não desiste nunca. É a poderosa ferramenta de uma nação colonizada em um sistema de exploração, pensado desde a sua concepção para nos convencer de que a nossa cultura nunca foi suficiente; não é suficiente. Um padrão eurocêntrico em que nossa diversidade de cores e sotaques não cabia, uma tentativa de construir um Brazilque devorasse o verdadeiro Brasil.
Impedir a antropofagia estrangeiristaque tenta, a todo custo, reduzir o que criamos, como falamos e de que forma vivemos é – hoje, mais do que nunca – um ato de muita coragem. É limpar uma história sangrenta, cheia de senãose de lacunas. É lutar contra um último senão: precisamos implodir este Brazilque não conhece o Brasil. Ele não merece o Brasil. Senão este Brazil acaba matando o que ainda temos do Brasil.
OBS: O texto faz menção à canção Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós. Do Brasil, S.O.S ao Brasil.

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