Autismo: seja você a peça que falta

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Anna Luiza Calixto

A informação é a maior arma contra o preconceito. Conscientizar é tornar público aquilo que faz parte da realidade de quem é discriminado e invisibilizado por uma condição inerente a si.
Nesta terça feira foi comemorado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. O poder da informação e do contato com experiências diversas rompe as barreiras dos estereótipos e tarjas impostas por quem não representa tal população.
O transtorno do espectro autista leva este nome pois pode ser revelado em diferentes nuances e perfis: dificuldade de comunicação por deficiência no domínio da linguagem e no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos, dificuldade de socialização e padrão de comportamentorestritivo e repetitivo.
Uma a cada 110 pessoas apresenta o transtorno do espectro autista. Em crianças, a frequência aumenta para uma a cada 59. Nos últimos anos, o autismo apresentou um aumento estatístico de 15%, o que não quer dizer que atualmente há mais pessoas com tais características neurológicas, mas sim, que o diagnóstico popularizou-se, permitindo a identificação de mais pessoas com o transtorno.
A dificuldade de socialização e comunicação se apresenta precocemente, o que favorece o diagnóstico do autismo que – válido ressaltar – não é uma doença. O espectro apresenta diferentes gradações por suas características que oscilam entre a dificuldade de expressar pensamentos completos e a agressividade presente em determinados comportamentos.
A identificação do autismo precocemente favorece o tratamento e o acompanhamento psicológico e psicopedagogo, possibilitando ao indivíduo o desenvolvimento de suas potencialidades dentro das possibilidades de sua autonomia e do seu reconhecimento enquanto sujeito social. Para além disto, cabe o olhar sensível e consciente da sociedade sobre aqueles que, numerosamente, compõem esta comunidade.
Durante esta semana, uma das reflexões a que fomos propostos é a da inclusão da pessoa portadora do transtorno do espectro autista dentro dos serviços de convivência social, das salas de aula, do mercado de trabalho e, enfim, de todas as formas de interação entre os indivíduos, de forma naturalizada e fluída, imune a preconceitos. É claro que este é o cenário ininteligível que procuramos construir através de vivências intersetoriais e multidisciplinares, mas mesmo mediante a era da tecnologia e das práticas científicas inovadoras, a inclusão ainda é um tremendo desafio.
Incluir não quer dizer apenas admitir a matrícula de crianças autistas em uma unidade escolar ou criar cotas para o vínculo empregatício entre a empresa e a pessoa autista. Construir ferramentas e políticas de inclusão quer dizer, acima de tudo, adaptar e desenvolver ambientes de atuação, bem como técnicas metodológicas, capazes de promover a interação e o afeto – tão poderoso no tratamento de transtornos comportamentais. Uma sala de aula que recebe uma criança ou um adolescente autista precisa estar preparada para ser palco da igualdade de direitos, em observância às peculiaridades do desenvolvimento e aprendizado da mesma. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069|1990) prevê o direito postulado constitucionalmente da presença e acompanhamento de um profissional habilitado para aplicar técnicas diferenciadas de ensino ao aluno autista. Não obstante, não é preciso ir longe para perceber que esta não é a nossa realidade.
A rede educacional estadual presente no município de Atibaia conta com vinte e um estudantes autistas. Em contrapartida, apenas dois deles dispõem da estrutura necessária para a possibilidade de explorar e encampar as potencialidades dos meninos e meninas autistas. E os outros dezenove? Pois é. Eles é que são submetidos à adaptação, às vezes contando com a presença materna na unidade escolar, transcrevendo as lições e tarefas de forma a respeitar as necessidades do estudante autista.
Estimativas apontam que só no Brasil podem existir aproximadamente 2 milhões de autistas. Cabe a participação sócio política e o controle social para assegurar que a nossa legislação esteja atenta a essa parcela da sociedade, promovendo a proteção dos seus direitos elementares.
Tais aspectos são previstos pela jurisprudência brasileira, através da Lei 12.764/2012, por exemplo, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, dando a ela os mesmos direitos legais previstos para as pessoas com deficiência, mesmo que o autismo não seja incluído nesta classificação. Outros direitos fundamentais são previstos para a pessoa autista, no que diz respeito ao transporte, à saúde e à previdência, bem como ao acesso aos serviços sociais.
A maior parte das pessoas portadoras do transtorno do espectro autista tem plena compreensão do que ocorre ao seu redor, mas apresenta dificuldade para se expressar e desenvolver interação com o mundo. O contato e o estímulo à sentimentos positivos é extremamente necessário para o desenvolvimento sadio da criança autista.
O autismo não precisa de cura, mas de compreensão. O que precisa ser curado é o preconceito de quem desrespeita; incompreende e discrimina quaisquer pessoas simplesmente por condições empíricas. O azul deste dia deve estampar nossa consciência – e, em objetivo, a nossa realidade –diariamente. Nós somos a peça que falta no quebra cabeça que simboliza o transtorno do espectro autista. Cada um de nós completa o mosaico da luta pelos direitos da pessoa autista; do respeito; da consciência e da compreensão.
Nós somos, para além de uma data comemorativa, convidados a refletir sobre a qualidade de vida de quem não dispõe dos mesmos privilégios que estão a disposição da nossa vida cotidiana. A peça está em cada pessoa autista cujos direitos são violados e cujo valor é reduzido. É nossa a responsabilidade de inseri-las no quebra cabeça – que tantas vezes oprime suas peças – trabalhando sua potência e respeitando suas peculiaridades. O amor é potência. O respeito é a cura.

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